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terça-feira, 15 de dezembro de 2020

SERNANCELHE - O ADÃO - lenda nº 104

Texto e desenho de Santos Costa

 Era o ano de 1310 quando o rei D. Dinis, na companhia do seu séquito, viajava pelo interior do reino, em terras de Moimenta da Beira e Sernancelhe. Quando o rei chegou à aldeia de Adebarros fazia muito calor, pelo que achou por bem repousar na casa daquele que fosse o mais fidalgo da terra. À falta de melhor, indicaram-lhe a casa do tio Adão, que era a melhor, e o seu dono ser o mais rico da povoação.

Espantados ficaram os fidalgos da corte e os camareiros reais quando viram o dono da casa, vestido de simples burel e com tamancos nos pés, o que indicava não ser assim tão rico, embora nele fossem de notar a franqueza e o respeito.

Quando o rei pediu água, pois a sede já apertava, o lavrador de Adebarros prontificou-se a trazer-lha numa taça de prata. E vinha já na direção do monarca com a taça cheia, quando o camareiro-mor lhe intercetou o passo, impedindo o lavrador de fazer a oferta. Dizia o camareiro que o dono da casa não cumpria aquele serviço com os ditames e pragmática da corte. Pelo contrário, o lavrador insistia em passar porque afirmava que o seu préstimo seria do agrado real, mesmo sem etiqueta.

O rei ouviu a altercação e sabedor da causa que opunha o seu camareiro ao lavrador, ordenou que este o servisse, como bem desejava. Bebeu a água e soube-lhe muito bem. Depois de acabar de beber, pergunto ao anfitrião:

- Desde quando sois fidalgo?

- Desde Adão, real senhor.

- Então, sendo assim, a vossa nobreza é mais antiga do que a minha - verificou o rei.

- Não, real senhor, porque Adão sou eu.

O rei apreciou aquela saída e tratou de dar para o lavrador e descendentes, o foro de fidalgos da casa real.

Desde então, até aos nossos dias, todos os primogénitos desta família tiveram o nome de Adão.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

AGUIAR DA BEIRA - AS BAIONETAS DO PICOTO - lenda nº 62

 

Texto e desenho de Santos Costa

Uma ala do exército francês, que invadira Portugal correndo em direção a Viseu sob o comando de um oficial de Massena, passou por Gradiz e subiu a Monções, chegando os soldados, verdadeiramente esfalfados, a esta povoação.

Ora, essa subida é puxada e, apesar da belíssima paisagem abundante e luxuriosa, para quem não vai propriamente para a contemplar, é obra. Para aqueles chanfrados que a subiam com mochila, farda, arma, munições e outros apetrechos bélicos, sobrava-lhes o trabalho de pernas.

Ninguém os recebeu em Monções. O povinho tinha recebido intimação para abandonar a aldeia e não deixar para trás migalha que tapasse a cova de um dente dos franceses. Arrombaram a porta da capela e, achando a imagem de Santo António, propuseram levá-la com eles, pois era a única coisa de valor que encontravam naquela desolação. O soldado que retirou a imagem estava a escondê-la, mas o oficial, que era cobiçoso, deu-lhe uma ordem:

- O santo é meu, soldado. Como não há saque nesta aldeia, esse é o único bem que levo daqui.

Ao retomarem a marcha, despertou-lhes a atenção umas cintilações que ofereciam as lajes escorregadias da serra, porque tinha chovido na véspera e os calhaus refletiam os múltiplos regos de água como se fossem espelhos.

Conta a lenda que, amedrontados, julgando-se tratar do exército anglo-luso, largaram a imagem do santo e deitaram a correr pela serra da Lapa como se fossem perseguidos pelo próprio Demo.

O que subsiste da lenda é a confusão dos militares: tomaram as cintilações pelo luzir frio do gume das baionetas e não esperaram pela confirmação, dando às pernas na fuga como se elas não tivessem na conta algumas léguas de subida.

Diz o povo que nesse sítio estão sete fontes que brotam, cada uma, sete fios de água.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

PROENÇA-A-NOVA - A MOURA E A CORNA - lenda nº 108

 

Texto e desenho de Santos Costa

Na aldeia das Corgas, do concelho de Proença-a-Nova, havia um pastor de cabras que costumava ir com o seu gado para a serra. Era lá que se encontravam os bons pastos, pelo que nos dias mais quentes de verão nem sequer descia ao povoado.

Pois foi num dia de calor que lhe apareceu subitamente, sem ele se aperceber de onde, uma mulher ainda nova, bem bonita e bem arreada de roupa fina, brincos e braceletes de ouro e prata. O pastor nunca a tinha visto por ali mais gorda.

Quando ele ia para a cumprimentar, retirando o chapéu da cabeça como era costume de gente bem educada, veio ela logo com o pedido:

- Você podia dar-me leite na sua corna para eu levar para os meus filhos?

O homem pegou na corna – um chifre de carneiro que servia de botelha – e foi ordenhar uma das cabras, entregando a corna cheia de leite à mulher. Ela logo ali provou e gostou. Pediu então ao pastor para aguardar um migalho e levou a vasilha do leite, prometendo devolvê-la com brevidade.

Ela voltou pouco depois e devolveu a corna, retirando-se de seguida. O pastor olhou para dentro da corna e esta estava toda suja, tendo no seu interior alguns carvões bem negros.

- Esta mulher não deve regular bem da cabeça. Em vez de me agradecer a oferta, traz-me a corna com carvões. Vá a gente ter caridade com certas pessoas!...

Deitou fora os carvões e foi lavar a vasilha a uma nascente que havia ali perto. Deixou que a água lavasse a corna. O seu espanto deu-se quando, depois de retirar a corna da água, esta brilhava como se fosse de ouro e, no seu interior, havia um pó que tudo indicava ser desse valioso metal.

- Não querem lá ver, que aquela fulana era uma moura e os carvões são ouro fino? Vou por eles…
    Indo ao local onde os despejou, já não havia lá nada.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

ALJUSTREL - A MOURA E O TOURO - lenda nº 14

Texto e desenho de Santos Costa

O castelo de Messejana está localizado no monte com o mesmo nome, que faz parte do concelho de Aljustrel. O topónimo “Messejana” deriva da palavra árabe "masjana", com o significado de prisão.

Nessa terra e em tempos idos, estava uma mulher a lavar a roupa quando ouviu um silvo. Voltou-se e viu uma rapariga em que o corpo se dividia em duas partes: normal da cintura para cima; tal e qual uma cobra da cintura para baixo.

Esta mulher serpente disse-lhe então que era filha do alcaide do castelo de Messejana e estava encantada. Por isso mesmo se saiu a fazer um pedido um tanto ou quanto esquisito. E pediu-lhe para a desencantar:

- Para me desencantares deves ir, sem medo, limpar a baba a um touro que de ti se aproximará, pois este touro é o meu pai, que também se encontra encantado. Se tiveres medo, dobrarás o nosso encanto.

No dia seguinte, encontrando-se a mulher novamente a lavar a roupa, dela se aproximou um touro, escarvando o chão com as patas dianteiras, bufando e babando-se.

A moura tinha recomendado para limpar a baba ao touro, razão essencial para o desencantamento de pai e filha.

Como seria de prever, a mulher temeu-se e esqueceu as recomendações recebidas da mulher serpente no dia anterior. Perante a visão do bravo, ainda por cima a espumar e escarvar, caiu para um lado desmaiada.

Quando foi encontrada, não conseguiu articular palavra para dizer o que tinha acontecido. Não sabia o que se passou, não sabia sequer quem era e onde estava. Não conseguia dizer nada de nada. A partir dali nunca mais recobrou o juízo.

Quanto ao alcaide encantado em touro e a filha em mulher serpente nunca mais se ouviu falar deles, pois o encantamento redobrou e não consta que tivessem proposto nova tentativa a alguém.


 

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

LOURES - DIABO DE CABRITINHO - lenda nº 19


 Texto e desenho de Santos Costa

Vinha um homem a descer, pela tardinha, um caminho que vai do Casal do Monte até à igreja da Póvoa, quando encontrou um cabrinho aos saltos ao chegar à encruzilhada dos Quatro Caminhos.

O homem ficou-se a mirar o animal e a dizer para si:

- Olha ali um cabritinho bem bonito! Como é que anda por aqui perdido este bichano?

Vai ele, pôs-se a fazer festas ao cabrito, enquanto o animal parecia demonstrar satisfação.

Então o homem tomou uma decisão. Resolveu levar consigo aquele cabritinho, que parecia ter sido abandonado.

Quando mal tinha andado uns passos, levando o animal debaixo dos braços, verificou com surpresa que o cabritinho tinha aumentado de peso. Passou-o para o outro braço, pois aquele já ia dorido, mas o bicho continuava a aumentar de peso. Teve de parar.

- Este cabrito parece que tem chumbo! O melhor é levá-lo às costas…

Assim fez. Pôs o animal às costas, mas a cada passo que dava, o cabritinho ficava mais pesado, embora não aumentasse de tamanho. A páginas tantas do percurso, que era a descer, chegado ao sítio a que chamam o Pinheiro Torto, o homem já nem se podia mexer. E ele que era bem alto e forte!

Tratou de deitar o animal ao chão, pois aquele excesso de peso parecia indicar que ali havia coisa ruim.

- Vai-te, diabo, que pareces coisa má!

Dito aquilo, o homem fez o sinal da cruz e o cabritinho deitou a fugir, pois tratava-se do Diabo.

O homem coçou a cabeça, estava visto que se livrara de boa, e disse em voz alta para o Diabo ouvir:

- Ora, até que enfim, que já achaste quem andasse contigo às costas.