Texto e desenho de Santos Costa
Conta-se por tradição ter Bandarra deixado duas filhas. Chamavam-se Isabel e Maria. Ainda é a tradição que conta terem estas duas raparigas morrido no mesmo dia e hora.
Foi o caso da Maria ter sido presa devido ao fato de ter colaborado na representação de um auto, naturalmente proibido pelos representantes do sagrado.
Para cumprirem ordem do tribunal, dois soldados apresentaram-se no Nogueirão. Tinham ordens para levarem consigo Maria, presa e escoltada até à cadeia. Isabel carpiu a pobre sorte da irmã. Já entre a custódia dos dois soldados, Maria sossegou Isabel e tratou de vaticinar, tal como seu pai, porventura desta guisa:
Mais uma e outra vez
Ou será antes ou depois;
Daqui saímos três,
À chegada seremos dois.
Os soldados também ouviram e não gostaram. Palpitou-lhes que a subtração de um para três queria dizer que mal a prisioneira trataria de se pôr ao fresco e seriam apenas eles os dois a chegarem até à cadeia... de mãos a abanar.
Desde o Nogueirão até Aldeia Velha é tudo a subir, mas a bom subir. Na altura fazia um calor danado, mas a ordem de marcha era esta: à frente, um dos soldados, com uma das mãos de Maria presas numa das manápulas dele; atrás, o companheiro, com idêntica segurança.
Ela que tentasse fugir!
Chegados ao cimo da ladeira, o soldado que seguia na frente soltou a sua mão da de Maria e caiu ao chão. Ainda lhe acudiu o companheiro, mas o coitado logo ali morreu.
- Ó mulher, agora entendo as tuas palavras”, proferiu o soldado sobrevivente. “Do que recitastes há pouco, cumpriu-se que, das três pessoas que acabam de subir esta ladeira dos infernos, uma delas daqui não passaria.
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