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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

TRANCOSO


Enquanto as gentes do povo passavam pela rua da amargura para conseguirem o pão com que matavam a fome, uma moura que assistia nos barrocos próximos do Feital dava-se ao desplante de assoalhar um riquíssimo bragal e cobiçado tesouro nas madrugadas dos dias de São João e de São Pedro. Armava o estendal ao relento, com arcas de joias, sacos cheios de dinheiro, ouros, pratas e pedras preciosas.
A moura desvanecia com o seu tesouro posto à luz da manhã, desdobrando lindas toalhas bordadas a ouro com dedal de prata. E não se sabe quantas coisas mais de valor guardaria ainda nas grutas inexploradas onde passava o seu encantamento.
Calhou certa vez a passar por ali uma mulher na companhia de uma filha pequena e a ver tão cobiçada fartura de riqueza. Em quebranto ficaram mãe e filha, mais a primeira do que a segunda.
O certo, certo é que ficaram ambas ofuscadas com o esplendor das maravilhas. Só uma mão cheia daquelas peças dava para esbanjar à larga e gozar toda uma vida repimpada de papinho para o ar.
A estranha deixou tempo à mãe e à filha para se fortalecerem com a surpresa e mais com a cobiça. Com gestos amigáveis, a moura ofereceu à mulher a liberdade de levar consigo o que lhe aprouvesse, desde que o fizesse de uma vez só. Esta, sem hesitar, com olhos piscos de tanta vesânia e cobiça, berrou para a filha:
— Ó rapariga, vai-me de um pulo a casa por via de trazeres a saca maior que lá vires.
Um pulo era um modo de falar, mas a criança não demorou a trazer o saco mais avantajado que encontrou. Mais depressa do que era preciso, ambas trataram de o encher indiscriminadamente com peças valiosas, enquanto a moura, que não ficava mais pobre por isso, seguia os gestos precipitados da ganância.
— Mexe-me essas mãos, minha aranha, avia-te! — incitava a mãe, recolhendo em dobro nas manápulas o que em metade cabia nas da filha. — Mal parecerá se não aceitarmos isto tudo que esta boa alma nos oferece.
Vendo a moura que a mulher estava com vontade de encher outro saco, perguntou-lhe se estava com vontade de gastar toda aquela fortuna durante a sua vida.
Toda rapioqueira, a fulana disse que sim e mais que também, acrescentando: com a graça de Deus.
— Então, se é isso, dou-te apenas três anos de vida para gastares tudo o que levas.
A mulher fez-se branca como o véu dos anjos. Por momentos ficara imóvel e, depois de uma pequena hesitação dolorosa, tomou uma decisão. Salamurda, tratou em virar o saco de fundo para o ar e despejou o seu conteúdo.
— Se ele é isso, fique-se vossemecê com as quinquilharias, que eu fico com os meus anos de vida. E passe muito bem.

Sem querer mais saber do tesouro, voltou para casa com a filha, disposta a viver os anos que Deus entendesse ser servido, ainda que pobre como era.

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