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terça-feira, 9 de julho de 2013

O BEIJO ETERNO (SORTELHA)



Uma águia voa sobre uma das mais belas fortalezas de Portugal: Sortelha. Daquele ponto, nas alturas, a águia domina o horizonte, o castelo e povoado.
Mas só à humana vista se depara um curioso conjunto de duas rochas, que se designam como “beijo eterno”.
É em sortelha que se encontra a explicação para esse nome, numa lenda que remonta ao tempo da reconquista cristã.
Conta-se que, certa noite, uma hoste de mouros cercou a fortaleza de Sortelha, para recuperar aquele sítio estratégico. No castelo, encontravam-se o alcaide, que resistia com os seus homens de armas, a mulher do alcaide, que diziam ser feiticeira, bem como uma filha, donzela formosa, que não queria saber nada de feitiços nem de guerras.
O cerco já durava há muito tempo e a jovem passeava o seu tédio entre muralhas. No seu quarto apenas tinha a companhia de um gato. Para se distrair, ia até à varanda, nas muralhas, pois dali via os sitiantes.
Um dia, despertou-lhe a atenção certo cavaleiro. Era ele o jovem comandante das tropas mouras. Fazia-se notar o jovem guerreiro pelo seu porte nobre, altivo e belo.
“Que lindo homem !”, exclamou ela, seguindo-o com os olhos enquanto ele fazia caracolear o cavalo.
Se ela o viu, ele também a viu a ela. A beleza da jovem cristã deixou o chefe mouro prendido na sua contemplação.
“Que Linda Mulher !”, pensou ele, levantando a cabeça para descortinar o rosto feminino no alto das muralhas.
A partir daquele momento, nem um nem o outro deixaram de pensar em encontrar-se, ainda que fosse uma só vez na vida. O chefe mouro conseguiu que alguns dos seus homens conseguissem fazer subir pelas muralhas, em cestos, as mensagens e oferendas que, às ocultas dos guardas do castelo, fazia chegar às mãos da sua amada. E esta, por sua vez, àquela mesma hora do crepúsculo, lá estava para as receber e, por sua vez, remeter para ele objectos que não o fizessem esquecer de quanto o amava.
Tudo decorreu sem incidentes. O certo, porém, é que os dois amantes não o podiam ser apenas à distância; nem podiam estar eternamente separados pela fronteira que dividia os cristãos cercados e os mouros que os cercavam. Por isso, o chefe mouro prometeu a liberdade a um prisioneiro cristão, dando-lhe uma recheada bolsa com moedas de ouro, com as condições que ele impôs:
“Falarás a sós com a donzela e abrir-lhe-ás a porta.”
O soldado assim fez e ela, aproveitando a escuridão, saiu do castelo.
Mas a mãe da jovem, que andava a vigiar o namoro da filha com o guerreiro, apercebeu-se que alguma coisa se passava nessa noite e levantou-se. Confirmou as suas suspeitas. Os amantes estavam junto às muralhas e beijavam-se.
“Malditos ! Eu vos amaldiçoo e vos transformo em pedra !”
Gritou uma algaraviada de feitiços e os dois, conforme estavam abraçados, lábios com lábios, ficaram petrificados. E assim permaneceram, para sempre. Quem os quiser ver, terá de ir a Sortelha e perguntar pelas rochas do Beijo Eterno.



5 comentários:

  1. Santos Costa
    Esclarece-me, por favor: as ilustrações que aqui se vêem pertencem a algum álbum de BD? Pelo menos aquela primeira ilustração parece tratar-se de uma capa...

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  2. Caro Geraldes Lino

    Não é propriamente uma capa, porque a ideia é posicionar-se, como folha de rosto, no miolo. E, como tal, para um formato de 22x22, ocupa a página.
    Já há muito tempo que tenho tratado de "coleccionar" as lendas portuguesas, desenhando-as e adaptando o texto aos desenhos (ou vice versa), de forma a cada uma das lendas ocupar, no formato acima, 8 páginas - começa numa ímpar, termina numa par; e assim sucessivamente. Tenho "montes" delas.
    No entanto, essas lendas estão desenhadas no normal formato de álbum, tendo eu, paulatinamente, adaptado as vinhetas a este novo formato, desta feita após a digitalização.
    Como se trata das lendas de todo o País, podes imaginar o número de páginas que isto leva, quando e se as acabar na totalidade... Bem, numa grande parte, porque elas são aos milhares.
    Recentemente, tive a proposta de uma editora para publicar doze, as que respeitam às Aldeias Históricas, que estão concluídas. A editora estaria a negociar a obra com a associação que gere aquele projecto, mas a coisa está em banho-maria, sem que me tenham adiantado mais pormenores. Esta vinheta faz parte de Sortelha (concelho do Sabugal), uma das aldeias históricas; os outros desenhos fazem parte das vinhetas da lenda.
    Uma curiosidade: em todas as lendas procuro inserir os ambientes locais e os monumentos, de forma a haver uma percepção mais íntima por parte dos leitores das respectivas regiões e, ao mesmo tempo, colocar na envolvência gráfica os pormenores do património natural e construído.
    Obrigado por estares atento e mereceres uma resposta, pois o teu comentário é o primeiro a este recente blogue. Daí ter adiantado o processo de execução para as Aldeias Históricas, que estava ainda no "segredo dos deuses", embora eu já tenha participado numa entrevista da RTP1 durante a apresentação do projecto.
    Se a editora "roer a corda", é natural que tenha de eu próprio entrar em campo. Mais tarde darei conta dos pormenores...

    Abraço
    Santos Costa

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  3. Caro amigo Santos Costa

    Agradeço o esclarecimento.
    Mas aproveito para te perguntar se não achas que já tinhas bastante com que te entreter a trabalhares no blogue "Bandarra Bandurra", a fazeres a banda desenhada "As Aventuras do Magriço" para ele (que bem deveria avançar mais célere), a pretenderes passar à figuração narrativa o teu romance "Garnisé-Romande"...
    Iniciaste recentemente, em Julho, mais este blogue (e tens ainda um outro, de diferente tema, "Valdujo-Trancoso", onde pouco mexes (pudera...)
    E pensava eu que me dispersava demais...
    Abraço,
    GL

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  4. Caríssimo Geraldes Lino

    Mais uma vez acertaste no retrato que fazes deste salta-pocinhas (que sou eu), uma vez que corresponde ao perfil daquele que, aparentemente, quer fazer tudo e acaba por não concluir coisa alguma.
    Disperso-me mais do que devia, sim. No entanto, não são os blogues - os três que indicaste, incluído este adventício onde agora nos encontramos - aqueles que absorvem a maior parte do tempo. Basta tomar em conta as datas de colocação das peças escritas e/ou ilustradas, para perceber que este rebanho anda um pouco ao abandono. Felizmente, para mim, em vez de lobos que o ataquem, tem tido a visita de amigos (como tu), com palpites, conselhos, dois dedos de prosa e demais preceitos de boa camaradagem bloguística que merece registo.
    Divido, como sabes, o tempo pela escrita e pelo desenho, consoante a pachorra e o vagalhar das ideias, porque o mercado das encomendas é tão escasso que não me impõe as amarras de projectos com finalização e data marcada. Deve-se somar a este pormenor muita inconstância da minha parte - sou um vaga-lume ou pirilampo, com candeia acesa a partir de certa hora da noite (noctívago, naturalmente) período que corresponde ao meu espectro cicadiano preferido. Os desenhos, como é óbvio, pertencem ao período diurno, mas este tem outros objectivos e propostas que condicionam a um limite apertado essa mesma dedicação.
    Com este arrazoado todo, acabo por resumir numa penada o meu sentido de trabalho: canso-me de um projecto, vou para outro; retorno ao primeiro e vou navegando assim numa sequência descoordenada (mas não caótica), conseguindo sempre finalizar tudo aquilo que me dá prazer fazer, nem sempre dentro do tempo que convinha executar.
    Abraço
    Santos Costa

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    Respostas
    1. Volto para um reparo de pormenor: onde escrevi cicadiano queria escrever circadiano.

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