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quinta-feira, 18 de outubro de 2018

GOUVEIA - A QUEDA DO PÚCARO (111)


Na Nespereira, concelho de Gouveia, situada na vertente norte da Serra da Estrela, existe a Quinta do Paço. Pertencente à dita quinta, existe uma capela de invocação da Senhora da Encarnação, onde se diz estar sepultado um nobre do tempo de D. João II, que foi combatente deste monarca.
Quando o cognominado Príncipe Perfeito visitou a Nespereira, no ido século XV, foi recebido pelo seu importante e dedicado súbdito na Quinta do Paço, possivelmente assim chamada porque foi, durante breve visita, o paço real.
O rei terá gozado das delícias da boa mesa e de boa cama e partilhado com o anfitrião o exercício da caça por aqueles montes e vales serranos. Como não podia deixar de ser, toda a comitiva real teve, se não o mesmo, idêntico privilégio.
Dotado de alma paciente, prenda com que se bafejavam os senhores da Beira, o anfitrião fez das tripas coração para proporcionar aos convidados, mormente a el-rei, todos os desvelos que alguns nem sequer mereciam. Lá diz o povo, na sua sabedoria ancestral: “por causa dos santos beijam-se as pedras”.
A contas com tal fidalguia, que não era pouca, o nobre da Nespereira deu grande desbaste na despensa e maior rombo no nível dos tonéis, pois é sabido que gentes da cidade e da corte, apanhando-se nestas terras, tratam de enfardar como se não comessem há um ano, tudo à barba-longa.
Ora, conta-se que depois de renhida caçada ao porco-montês, que levou el-rei a cavalgar por serros e vales, matos e courelas, com as nádegas bem doridas de tanto solavanco na sela, este regressou ao solar da quinta a suar em bica e sedento.
Fez saber ao nobre anfitrião que tinha sede.
“Mandai trazer-me um púcaro de água fresca”, pediu o rei, sabendo que esse pedido era logo tomado como uma ordem.
“Não quereis antes um jarro de vinho, majestade?”
“Água fria lava e cria. Se ma trouxerem da nascente, que venha em bilha de barro.”
“Pois seja como quereis.”
 E o nobre, com todo o respeito por sua real majestade, mandou vir por um dos seus criados um púcaro de barro com água fresca, que ele próprio fez tenção de entregar ao soberano. Porém, como estava muito nervoso perante tão importante hóspede, quando ia a entregar o púcaro nas mãos do rei, deixou-o cair.
“Perdoai, real majestade, que as mãos me tremem como se estivessem engaranhadas com o frio.”
O rei sorriu perante tanta atrapalhação e, com um gesto de mãos, acalmou o fidalgo.
Porém, toda a comitiva do rei desatou a rir perante o incidente, pois se tinha apercebido da atrapalhação do fidalgo da quinta. Até os escudeiros e criados daquela chusma da corte, gargalharam estrondosamente perante o banal incidente.
Sem demonstrar qualquer animosidade, antes demonstrando perspicaz discernimento, o rei nem sequer sorriu; pelo contrário, afivelando no rosto um ar carrancudo e grave, encarou os súbditos e fez estancar subitamente a copiosa galhofa.
“De que vos ris, senhores?”
Como ninguém ousasse abrir o bico, porquanto a resposta era evidente e podia ser tomada por ofensa, o monarca voltou-se para todo o grupo dos da risota para lhes deixar, à guisa de admoestação, esta sua leitura do acontecimento:
“Saibam todos os da mofa, que este nobre cavaleiro, que agora deixou cair o púcaro perante o seu rei, ao seu serviço e nas guerras do norte de África nunca deixou cair a espada.”
Voltou-se para o nobre da Nespereira e inquiriu:
“É verdade o que estou a dizer, ou não?”
O anfitrião baixou a cabeça em gesto humilde e confirmou:
“Ao vosso serviço, majestade, a força dos meus braços rejuvenesceu e multiplicou-se ao dobro do seu esforço. E mais teria feito, junto a vós, se tal pudesse ser ainda hoje.”
Voltou-se o rei para os da sua corte:
“Aí vedes quanta mágoa me causa o vosso riso zombeteiro perante um deslize tão insignificante, quando eu sei, que de entre vós, se não deixásseis cair o púcaro, talvez não vos fosse tão favorável erguer uma espada perante o inimigo e mantê-la na mão durante o confronto. Assim, qual será de mais valor: suster um púcaro de água em tempo de paz ou erguer uma espada em solo de guerra?”
Nem será necessário dizer que todos os presentes receberam o sermão com a cabeça inclinada para o peito. Não se ouvia um sussurro, não se vislumbrava um movimento, como se todos estivessem vergados por um anátema.
Quando de novo trouxeram outro púcaro de barro, o nobre da Nespereira teve a oportunidade de o entregar nas mãos de el-rei, colocando um joelho em terra. E o rei bebeu com plena satisfação, lançando ao solo, como era costume, a água que sobejou.
Os risos cessaram, até porque, de entre aqueles que riram, estariam muitos que se temeram de lutar e que, nas horas de refrega, desandaram para sítio mais seguro.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

ALJUSTREL - O TOURO DA MESSEJANA (16)


O castelo de Messejana localiza-se no monte do mesmo nome, que faz parte do concelho de Aljustrel. O topónimo “messejana” deriva da palavra árabe "masjana", com o significado de prisão.
Prisão ou não, a Messejana não deixa de ser um lugar alentejano habitado, principalmente depois de reconquistado aos mouros por Dom Sancho II em 1235, que até mereceu o título de concelho, dado pelo rei Dom Dinis, cujo foi desfeito em 24 de Outubro de 1855, pelo Ministro do Reino Rodrigo da Fonseca. Dom Dinis mandou restaurar o seu castelo em 1288 e doou a vila à Ordem Militar de Santiago da Espada. O rei Dom João III doou a Messejana a Dom João da Silva, Senhor de Vagosque a fez transmitir ao seu filho Dom Lourenço da Silva, que reconstruiu o convento para frades franciscanos e a Igreja da Misericórdia.
O rei Dom Sebastião visitou este donatário na Messejana e convenceu-o a ir combater no Norte de África, o que lhe seria fatal cinco anos depois dessa visita.
Para que se não julgue ser terra de pouca importância, mormente religiosa, a Messejana chegou a ter 11 igrejas três capelas particulares.
Deixemos a História e o tal Rodrigo da Fonseca que não respeitou a decisão real, para irmos à Lenda.
Nessa terra e em tempos muito idos, estava uma mulher a lavar a roupa quando ouviu um silvo. Voltou-se e viu uma rapariga em que o corpo se dividia em duas partes: normal da cintura para cima; tal e qual uma cobra da cintura para baixo.
Esta mulher-serpente, que se deslocava como as cobras, rastejando e mostrando com frequência uma língua comprida e bífida, disse-lhe então que era filha do alcaide do castelo de Messejana e estava encantada. Informou-a que o pai tinha sido primeiramente encantado como touro, tendo ela acompanhado o animal até ela própria sofrer aquela metamorfose. E pediu-lhe para a desencantar:
“ Para me desencantares deves ir, sem medo, limpar a baba a um touro que de ti se aproximará, pois este touro é o meu pai, que também se encontra encantado. Se tiveres medo, dobrarás o nosso encanto.”
A mulher não interrompeu e teve receio de procurar saber mais pormenores.
“Entendeste o que te peço?”
A mulher não conseguiu abrir a boca e respondeu afirmativamente com um aceno de cabeça.
“Então faz como te disse.”
Limpar a baba a um touro, se bem que não era asseio que lhe agradasse, não era pior do que se chegar junto ao touro para essa limpeza. Um touro sempre é um touro, que lhe importava que fosse o pai daquela criatura? Seria mais fácil darem-lhe a incumbência de limpar o ranho à mulher-cobra.
No dia seguinte, encontrando-se a mulher novamente a lavar a roupa, aguardou que alguma coisa acontecesse, principalmente a vinda do tal touro que dela se aproximaria para limpar as beiças.
Efectivamente dela se aproximou um touro, escarvando o chão com as patas dianteiras, bufando e babando-se. Deu duas voltas, sempre com ar fero e sanguíneo, parando de vez em quando para escarvar o chão, baixar a cabeça e as hastes e resfolegar de modo a fazer levantar a terra do chão.
“Como é que queres que te limpe a baba, se me estás a ameaçar?”
Uma voz vinda de algures, que a mulher não conseguiu identificar, avisou:
“Faz o que tens a fazer.”
A mulher temeu-se e esqueceu as recomendações recebidas da mulher serpente no dia anterior. Podia correr risco de vida, para mais com o temor de ir bailar presa por uma ou ambas as hastes pontiagudas do bravo animal.
Estava para se ir dali, fugindo daquele animal bravio sem cumprir a missão. Foi quando o touro, baixando mais uma vez a cabeça negra deu ares de querer investir.
Perante a visão do touro nesta nova ameaça, a mulherzinha caiu para um lado, desmaiando.
Ali ficou por tempo interdito, não se sabe por quanto, parecendo morta. O touro, vendo-a naquele estado e a baba por limpar, deu duas voltas ainda mais enfurecido e acabou por desaparecer, ouvindo-se de algures os silvos aflitivos da cobra com aspecto humano. Pai e filha continuaram assim encantados, não se sabe por quanto tempo, provavelmente para sempre. Coitados!
Quando a mulher foi encontrada por familiares e outros populares, que já a faziam ferida ou morta nalgum declive da serra, não conseguiu articular palavra para dizer o que tinha acontecido. Instavam com ela, mas só lhe viam os olhos olhar para nenhures, perdido todo o brilho, como se estivesse em transe. E estava.
“Que terá acontecido à mulherzinha?”
“Parece que foi lavar a roupa e caiu para o lado, variando de vez.”
“Pior ainda, foi ter perdido a fala, que nem sequer sabe dizer quem é e onde está.”
A partir dali nunca mais recobrou o juízo.
Quanto ao alcaide encantado em touro e a filha em mulher serpente nunca mais se ouviu falar deles, pois o encantamento redobrou e não consta que tivessem proposto nova tentativa a alguém.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

FORNOS DE ALGODRES - A LAJE DA RAINHA (120)


Depois de muitas insistências de uma rapariga de Algodres, o povo acabou por lhe dar ouvidos. Ela dizia que sonhava várias vezes com uma senhora toda vestida de ouro, com uma coroa na cabeça, que montava um cavalo também todo branco.
“Se tem coroa na cabeça é por lá rainha”, diziam-lhe, meio a sério meio a rir. “Sendo isso, anda à procura do trono.”
“Se vocês não acreditam, deixai.”
O povo não acreditava, mas acreditava ela. Do sonho passou para a realidade e deu-se a vigiar o sítio onde a mulher aparecia.
E certa vez aconteceu.
A trote, lá vinha ela, a tal senhora coroada, sobre o tal cavalo branco e dirigia-se para a Misericórdia. Depois desaparecia tão depressa como aparecera.
“Ela apareceu! Ela sempre apareceu em cima do seu cavalo branco!” gritava a rapariga.
Quando falava naquela dama, a rapariga era tomada de êxtase. Jurava e trejurava que a tinha visto, tal qual o sonho, com aqueles mesmos olhos que a terra havia de comer. E como a moça era tida como ajuizada, muitos creram nas suas palavras.
“Não ponhas mais na carta, havemos de ir lá ver essa tua senhora”.
Juntaram-se os mais crentes e outros tantos que duvidavam numa noite no largo da Misericórdia para confirmarem as aparições da tal cavaleira, mas nada apareceu com essa figura.
Nas noites seguintes continuaram as vigias, mas da dama não viram sequer a mais ténue sombra.
“Deve ser obra de algum engraçadinho, vestido de mulher, que quer mangar á custa da gente da terra”, disse um dos mais velhos do grupo de vigilância.
“Foi-nos bem feita! Para que nos havemos de fiar em sonhos?”, disse um dos homens do grupo, para quem a perda de sono não foi recompensada com a visão da cavaleira rainha.
“O cavalo é todo branco e as crinas são brancas como a neve”, defendeu-se a sonhadora, a lembrar que, se fosse paródia de algum engraçadinho, na terra não havia uma única cavalgadura dessa cor.
Estavam alguns para desistir, coléricos e despeitados, quando se deu o encontro. Estava-se na décima terceira semana do ano, passadas três luas cheias desde o primeiro de janeiro, marcando o calendário o dia 13. Eram precisamente 3 horas e 13 minutos quando viram surgir, vindo da Praça, o cavalo branco com uma donzela de vestes douradas, debruns de azul e ornamentos de estre-las, que se dirigia a trote para o castelo. Não lhes deu tempo nem ânimo de perguntarem quem era ou simplesmente darem-lhe a salvação de cortesia.
“Vem lá de casa de Deus ou do Diabo, sentada no cavalo direita como um espeque de feijoeiro, de nariz empinado e nem a boa-noite nos desejou”.
Depois deste encontro, que provava ter consistência do sonho da rapariga, juntou-se mais gente nas vigílias, revezando-se uns e outros para não deixarem passar uma noite em claro. Pretendiam chegar ao entendimento com a estranha personagem e os motivos da sua visita a Algodres.
Houve alguém que alvitrou uma hipótese, logo corroborada como certeza pelos que ouviram estar a visita relacionada com as pedras do antigo castelo arruinado, as quais serviram para a construção da igreja da Misericórdia, em 1621, pelo vigário de Algodres e o abade de Infias. Lá seria a rainha do castelo que vinha em busca do que era seu.
Assim se passaram 13 dias, até que na laje apareceu um anão de orelhas pontiagudas e a dama a cavalo, vindo o anão à frente e a esforçar-se por não ser pisado pelos quartos dianteiros do animal.
Enquanto o anão ficou a descansar da correria no centro da praça, a dama troteou com o cavalo em círculo, como se estivesse em arena, sem dirigir palavra a quem quer que fosse. Depois de três voltas, regressou para o centro e, empinando o cavalo, deixou descair as rédeas que o pequeno súbdito se apressou a agarrar.
Foi então que, com as rédeas seguras pelo anão, a dama régia se levantou nos estribos e dirigiu a palavra a todos os que estavam presentes:
“Sou quem sou. Tratai-me por rainha e quero informar-te, Algodres, que sejas como Jeremias, profeta de Jerusalém, pois vais ter vários fogos na Barroca, ladrões que serão à chusma entre franceses, castelhanos, africanos e até daqui naturais. Terás de deixar a sede do concelho para a aldeia de Fornos. Vais crescer para o lado da Rasa e serás uma terra bela, acolhedora e apetecível”.
O que é certo e sabido, segundo as fontes locais, Algodres assenta no cume da serra do seu nome, a altitude de 700 metros, de onde contempla o seu antigo alfoz agora distribuído a Fornos de Algodres, como se fosse uma soberana.
Não sabemos se Algodres teve castelo como Celorico, Linhares, Aguiar da Beira e Trancoso, mas tem-se por assente que existiu, tendo a pedra das suas ruínas servido para a construção da Igreja da Misericórdia.
Depois destes vaticínios, a dita rainha regressou por onde tinha entrado, com o anão a seguir com dificuldade o trote do cavalo.
Aquele sítio passou a ser conhecido por Laje da Rainha.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

CELORICO DA BEIRA - A MOURA DA RAPA (74)

Na Rapa, um homem de nome Miguel, sonhou que uma moura estava encantada no sítio do Alambique. Foi com alguma esperança que o sonho lhe trouxe a possibilidade de se tornar rico e de dar uma grande reviravolta na vida. Por isso, nessa mesma manhã foi até ao tal sítio do Alambique sem dizer nada a ninguém. E efectivamente encontrou uma moura sentada e repimpada, que tinha ao seu lado muita riqueza em ouro.
Não ficou ele inebriado pela sorte que lhe batera à porta através do sono. Para seu espanto e alguma dose de receio, a mulher, apesar de muito bonita, tinha o corpo de uma cobra da cintura para baixo. A agravar esse aspecto, de vez em quando soltava ela da boca uma língua bífida, igualzinha à das serpentes.
O Miguel ficou paralisado e a pensar no que devia decidir.
Esteve vai não vai para dar meia volta e sumir daquele sítio, mas a tentação da riqueza que lhe aparecia em sonho foi muito mais forte.
Aquela espécie de mulher tentou-o assim com voz amorável:
“Vem até mim, bom homem”, convidou a moura com um largo sorriso. “Podes crer que é para o teu bem.”
“Não és mulher nem és cobra, tenho receio de me chegar e ser mordido com algum veneno, ora essa!”
“Tolice a tua. Já viste ou ouviste alguma serpente falar? E já encontraste alguma com uma cabeça como a minha, com este rosto bonito como não há na Rapa? E ainda há pelas gentes desta terra que tenha tantas riquezas como estas?”
“Nada não”.
“Pois fica sabendo que eu só me apresento assim por estar encantada da cintura para baixo e não da cintura para cima. Sabes o que isso quer dizer?”
Ele meditou, encolheu a beiça e condescendeu:
“Quer dizer que és mulher e que te encantaram da cinta para baixo.”
“Nem mais”.
Ele ficou mais calmo e decidido a não fugir dela. A voz da mulher era doce e agradável. Para mais, ela estava adornada com louçanias e copiosa profusão de jóias na metade que correspondia ao tronco de mulher.
“Se ele é isso, vou aceitar chegar-me um pouco mais, pois tenho tanto medo das cobras, que me pelo!”
A moura recebeu-o com agrado e colocou à sua disposição todas as riquezas que ele via, expostas como se estivesse em tenda de feira franca, especialmente um valioso galo de ouro de tamanho natural.
“Miguel” continuou ela, como se já o conhecesse há muito, “esta riqueza é toda tua, mas tens de me deixar fazer uma coisa…”
“Pois sim, não seja por isso. O que queres de mim?”
“Deixa-me beijar-te e meter a língua na tua boca”.
Ele não achou graça à proposta e recuou, enojado:
“Ui! Isso é que não!”
Ela soltou a língua bifurcada e insistiu:
“Não te farei mal, pois quero ser desencantada; e tu, no fim de aceitares o que te proponho, ficarás rico, muito rico!”
A língua dela bailava como se fosse uma serpentina.
“Nessa é que eu não me fio.”
Ela insistia, ele negava.
Estavam eles naquela como se a moura quisesse, contra o gosto do homem, uma nova razão do pecado original.
Deitou-se ao galo de ouro, arrancou-lhe a crista e fugiu, deixando a mulher e cobra a gritar como ele, sabia o que tinha a fazer após a própria recusa.
Vendo que ela queria ser desencantada daquela maneira, deitou-se ao galo de ouro, arrancou-lhe a crista e fugiu, deixando a mulher e cobra a gritar:
“Miguel, meu ingrato, que dobraste o meu encanto!”
O homenzinho nem sequer ouviu as últimas palavras. Levava uma vaga amostra do conjunto das riquezas, no entanto suficiente, na opinião dele, para se governar bem governado.
Do mesmo que teve artes para ludibriar a moura encantada, assim o Miguel tratou de passar a patacos aquela crista de ouro. Mas não ficou indeciso sobre o dilema do que podia render ou não aquela crista de ouro. Nem decerto fazia ideia quanto lhe podia render, podendo ser o suficiente para compor a vidinha, não fosse ele enganar-se e negociar com um ourives matreiro.
“Não vou trocar o ouro em Celorico, onde já me conhecem e julgarão que o roubei, o que nem é mentira nenhuma”, pensou ele, já penetrado pela cobiça. “Talvez a vá vender a Trancoso, à feira ou a um dos mercados, que há por lá muitos”.
Tanta prontidão na troca podia ser fatal. Em Trancoso, onde já tinha estado, podiam reconhecê-lo e estranhar tão boa peça nas mãos de um zé-ninguém, ou ainda estar sujeito a outros juízos que chegassem aos ouvidos das autoridades. E, sendo assim, o que lhes iria dizer? Que tinha recebido o ouro, de mão-beijada, de uma mulher que da cintura para baixo tinha o corpo de serpente?
Mais longe iria fazer o negócio. Talvez em Vi-seu, mas era muitas léguas mais longe que a Guarda, onde ainda não tinha ido alguma vez na vida.
Por fim, tomou a decisão. Ia até à capital do seu distrito.
O Miguel tratou de ir vender a crista do galo à cidade da Guarda e aí deram-lhe bom dinheiro por ela.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

ALANDROAL - O ALGEMADO DE TERENA (4)


À ermida de Nossa Senhora da Boa Nova, em Terena, anda ligada uma lenda. Esta ermida é muito antiga e é do tipo fortaleza, muito raro em Portugal. A ela anda ligada uma lenda.
Havia há muito tempo uma prisão junto do mar onde um homem se encontrava algemado de pés e mãos. Este homem tinha sido condenado ao cativeiro em masmorra, acorrentado por ferros nas mãos e pés, como se já não bastasse ter sido enclausurado num calabouço de onde seria difícil fugir.
Este homem estava inocente. Clamava inocência e ninguém acreditava nele, desde o juiz que o condenou até aos beleguins que o trouxeram amarrado para cumprir a pena. Nem mesmo o carcereiro, que o via todos os dias, o tomava por pessoa inocente, limitando-se a deixar-lhe alguma comida e água, indiferente à imobilidade da clausura do homem.
Certo dia, levava-lhe o carcereiro a comida quando viu que as algemas tinham desaparecido. O homem encontrava-se no cárcere, como sempre, mas tinhas as mãos e os pés livres e os instrumentos que o detinham não se viam em lado algum.
O carcereiro perguntou-lhe:
“Como conseguiste libertar-te? O que fizeste às algemas?”
O homem encolheu os ombros, também perplexo:
“Eu não fiz nada. Elas desapareceram!...”
“Não pode ser. As algemas não desaparecem assim, sem mais nem menos…”
De novo foi algemado e acorrentado, mas de nada valeu. No dia seguinte o homem estava de novo livre dentro da cela.
“Raios partam o diabo!” gritou o carcereiro. “É possível que as algemas se desfaçam em fumo?”
Mais uma vez as algemas foram redobradas, depois de verificado que as mesmas não tinham uma única pinta de ferrugem, As correntes eram grossas e sólidas e as argolas embutidas na parede eram capazes de resistir aos puxões de uma junta de bois.
“Vamos ver se desta vez os grilhões acabam por sumir como aconteceu com os demais. Vais ficar aí, pois não haverá força que te tire desta prisão”.
O preso, também ele intrigado, apenas disse:
“Assim o quis a minha desventura.”
Mais uma noite se passou e o carcereiro, logo pela manhã procurou na cela o resultado da nova segurança. O prisioneiro não era capaz de se libertar, visto não ter força suficiente para quebrar as argolas dos grilhões e na cadeia, fechada com portas de ferro, ainda por cima trancadas, não permitia ajuda de fora. Para além disso, nem sequer se via no chão de pedra qualquer indício dos grilhões ou sequer a limalha que ali ficaria depositada se fosse cortada.
As portas estavam todas fechadas e os sinais que tinha posto nos buracos das fechaduras estavam no mesmo lugar, assim como as trancas no preciso sítio em que as deixara.
Quando o carcereiro abriu a porta da cela e ali penetrou ia-lhe dando um chelique. O prisioneiro estava de pé, no meio da enxovia, com ar sério, totalmente liberto dos membros.
“Viva quem é, senhor carcereiro”, saudou o prisioneiro com ar igualmente intrigado.
“Será que não tens resposta para isto, excomungado? Será que tu és um feiticeiro e estás aqui para caçoar comigo?”
“Não é caçoada. Sabe Deus o que terá acontecido, pois não vi nem senti ninguém nesta pequena cela.”
“Por este andar, um dia destes acabas por sair disparado pelas paredes e eu terei de prestar contas ao senhor juiz.”
Desta vez o preso parecia ter uma explicação:
“Pois o que posso afirmar é que as algemas devem encontrar-se na ermida de Nossa Senhora da Boa Nova, em Terena.”
“E quem as levou para lá?”
“Não sei.”
“E como é que sabes disso, se ainda não saíste daqui?”
“Também não sei”.
O carcereiro encarou o preso como se ele fosse um animal do outro mundo.
“É um mistério! Nem tu dás conta que tas tiram, se não é tua manigância livrares-te delas?”
“Sei que fico subitamente libertado, sumindo-se todas ao mesmo tempo como se fossem levadas pelo ar. Não me apercebo de passos ou de portas a abrir, não ouço o tilintar dos ferros. Nada de nada!”
O carcereiro estava tão estupefacto que não sabia o que havia de fazer. Ia chamar os beleguins, o alcaide, o juiz e até, se fosse possível, que viesse ali o rei para ver com os próprios olhos.
O prisioneiro também não podia dar outras explicações, a não ser aquela que mais lhe pareceu consentânea com o caso.
“Julgo que foi Nossa Senhora que as levou”, acabou por dizer o preso, “pois não quererá ver preso quem está inocente.”
O preso tinha razão, as algemas foram encontradas na ermida de Nossa Senhora da Boa Nova. Estavam lá todas, inteirinhas, sem sinal de cortes. O milagre comprovara a sua inocência e, por isso, soltaram-no.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

AGUIAR DA BEIRA - A FRAGA DO MEDRONHEIRO (3)


Proclama-se esta lenda como sendo de Pena Verde.
Arrumada a Feira dos Vinte, em Moreira, lugar da freguesia de Pena Verde, ficou um queijeiro de Valverde entretido com uma súcia de amigos, brindando ao negócio que lhe veio nesse dia de feição.
Não obstante ter cuidado do bucho com a pinga, a boa pomada do lugar, e de ter por companhia aqueles com que melhor privava, veio o queijeiro a dar-se por quite de rambóia, despedindo-se dos camaradas. Deu largas ao macho e pôs-se a caminho da sua terra. Meteu pela mata, por atalhos velhos e pedregosos, a cantarolar como um passarinho, pois lá levaria o seu “grão na asa”.
A determinado passo, calhou ver em sentido contrário à sua marcha, duas mulheres que caminhavam em passo mais comedido. Uma delas era ainda nova, rapariga casadoura, enquanto a outra, que parecia mancar com o amparo de uma varinha, era velha e rugosa como tronco de pinheiro.          O queijeiro, à sua guisa de cumprimento, mais para a velha do que para a companheira, chalaceou como se versejasse:

“Adeus lugar de Moreira
Terra de muita feiticeira!”

Pararam nova e velha, ferindo-o esta última com olhar viperino. E foi também a mais idosa, com ar de ferocidade, que largou a aguilhada:
“Pedaço d’asno! Vais-te arrepender com língua de palmo por largares a bosteira!”
A mais nova, já conhecendo em que azeites fritavam os fígados da mais velha, acalmou-a.
“Deixe lá, senhora mãe! O raio do homem vai perdido de bêbado!”
Vista a resposta, o queijeiro baniu a réplica, tentou dar alguns passos sem vacilações, abanou os braços e sumiu-se nas brenhas.
Andou e andou até que a noite o apanhou de tal sorte que não conseguia enxergar cisco à frente do nariz. O homem, que não vinha desperto em todos os sentidos, esfregou os olhos e estacou. Tinha-se perdido no meio daquelas matas, ele que conhecia o caminho como a palma das suas mãos.
“Quem me mandou tardar na feira? Já me dizia o meu pai, que Deus tenha: tão grande é o erro como o que erra.”
Pelo seu lado, a alimária já dava mostras de desassossego e largou sem dizer adeus por um caminho vesgo. O dono apenas lhe sentiu o matraquear das patas no chão e foi um ar que lhe deu!
“Volta aqui, alimária do diabo! Não é do meu entendimento ter-te dado carta-branca para ires sem minha ordem!”
Atarantado, o queijeiro correu por ali às cegas, gritando por todas as almas do outro mundo e das que para lá haviam de ir até cair exausto.
Quando chegaram os primeiros raios de luz, o homem ergueu-se e deu em procurar a bestinha, quando encontrou no caminho dois homens que vinham em sentido contrário ao seu.
“O compadre vai aflito” reconheceu um deles. “Será que perdeu alguma coisa?”
“Deus se amerceie de mim! Perdi o cavalo que se deitou a fugir com a carga de queijos que sobraram da feira.”
“Deus se amerceie de ambos, pois há por aqui muitos lobos em jejum.”
O outro homem concordou.
“Quando sentem coisa para comer, juntam-se todos e vêm num foguete!”
Aquelas palavras não eram animadoras, mas o queijeiro achou que não era momento para se achar meditabundo.
“Se os meus amigos me fizerem o favor, três a procurar é melhor do que um”.
Os três andaram para um lado e para o outro, até que um deles encontrou alguns queijos no chão, na zona de fragas e barrocos que é conhecida por Medronheiro, onde existem fragas altas como ciclopes. Os poucos queijos sobejos estavam espalhados pelo chão e o machinho morto, entalado na brecha entre dois penedos. Com o nevoeiro e o medo dos lobos, o animal entrara naquela fenda e já não conseguira sair.
“Desgracei a minha vida por más palavras! Foi maldição da velha de Moreira!”
Assim gritou o pobre queijeiro, arrepelando-se, enquanto chorava baba e ranho.
Não era hora para tendências de mofa e reinação, perante o choro do queijeiro; no entanto, um dos homens, adivinhando que ali havia maldição, não deixou de fazer valer a razão do aforismo popular:
“As palavras fazem muitas vezes mais que as pancadas.”
Ao outro dia, o queijeiro entrou na igreja de Valverde. Ia cabisbaixo e naturalmente triste, ele que não era homem de frequentar a igreja. Entre duas orações, confessou:
“Fiquei sem os meus bens, por culpa minha os perdi. Perdoe-me, Senhor, pelo que eu disse. As mulheres de Moreira não são feiticeiras”.
Benzeu-se, saiu da igreja e aprendeu duas lições: não fazer serão na feira e ter tento na língua.

domingo, 19 de agosto de 2018

ÁGUEDA - O DIABO DO ALFUSQUEIRO (2)

Na freguesia de Préstimo e cerca da aldeia de A-dos-Ferreiros, o termo desta freguesia e ambas do concelho de Águeda, existe uma ponte sobre o rio Alfusqueiro.
O rio Alfusqueiro é um rio afluente do Rio Águeda que nasce na serra do Caramulo no concelho de Vouzela perto de Carvalhal de Vermilhas, e que passa por Cambra, Campia, Destriz e Préstimo indo desaguar em Bolfiar depois de percorrer 49 quilómetros.
Diz a lenda que um cristão encarregou-se da obra, mas quando a decidiu começar encontrou uma tarefa difícil, quase impossível. Mediu, tornou a medir, fez cálculos, refez esses cálculos meia centena de vezes, não havia volta a dar. A ponte não podia ser construída por mão humana, tais as formas do terreno e do curso de água.
“Grande obra, mestre pedreiro, grande obra!”
“Cá me sinto apoquentado por ser assim tão grande e eu tão pequeno para a fazer”.
“É também a minha opinião”, disse-lhe o Diabo.
“E porque assim é, estou aqui em desespero. Se me nego, perco tudo o que tenho; se a vou fazer, nunca a acabo e tudo perco na mesma. Se não for escravo, serei cativo. Se me fico, serei as duas coisas”.
“Então tu aceitaste uma empreitada daquelas em que todos os braços são poucos? Onde estavas com o juízo, homem?”
“Bem dou conta agora…”.
O Diabo colocou-lhe uma das peludas mãos no ombro.
“Não te preocupes, que eu e os meus ajudan-tes fazemos a ponte para ti.”
“Deveras?!”
Uma oferta daquele género garantia um saldo positivo a favor do construtor, fosse ele o Diabo ou outra coisa qualquer. Serviço feito e garantido. Ora isso não contava? Sou um louco responderia negativamente.
“Fico-te agradecido”, aceitou o homem.
“Mas não tens de agradecer, pois negócio é negócio. Em troca deste favor, entregas-me a tua alma.”
O homem encarou o Diabo, proclamado tentador em todas as homilias da igreja, sendo certo que mais tirava do que dava. Não era conhecido por ter instinto esmoler ou por apóstolo da caridade.
Como se não tivesse percebido bem, interrogou:
“A minha alma?”
“Vamos lá, homem” proferiu o Mafarrico com ar risonho e sorriso aberto, ciente da complacência e da fraqueza do humano. “É favor por favor. Eu construo a ponte sem tu mexeres um único dedo dos pés ou das mãos; tu apenas me entregas a alma, de que nem sequer dás conta”.
Passou para as mãos do homem uma escritura e disse-lhe que a devia assinar com o próprio sangue.
“Não precisamos de fiador” garantiu o Diabo, que a sabia toda, “pois o teu sangue faz as mesmas vezes.”
O homem assim fez e assinou o documento com o próprio sangue. O Diabo confirmou:
“Comprometo-me a acabar a obra no dia de Natal, ao cantar do galo, à meia-noite. Dou a palavra de honra, tanto mais que mais custa apanhar uma alma que construir uma ponte.”
Logo no mesmo instante apareceu um regimento de trabalhadores, todos eles diabos, que em turnos de noite e dia levaram de frente a construção da ponte sobre o Rio Alfusqueiro.
O Diabo e companheiros continuaram a obra e na data aprazada estavam prontos a dá-la por terminada, à meia-noite em ponto, conforme constava do contrato. Não comiam nem bebiam, não trocavam palavras uns com os outros e não faziam folgas sequer para secar o suor. Nem precisavam de capataz, uma vez que nenhum deles tinha vontade de andar à rédea solta, como era muito comum nas obras em que o pedreiro participava.
O homem via diariamente a ponte a ser cons-truída. E agora que via a ponte quase concluída, desejava no seu íntimo que os obreiros do inferno não acabassem a obra no dia de Natal à meia-noite ao cantar do galo.
Foi então que uma fada apareceu ao homem e aconselhou:
“Fizeste um negócio ruinoso para tua perdição. Tudo neste contrato foi feito para te apanhar a alma, pois o Diabo é do que mais aprecia”.
“Já é tarde para voltar atrás. Está quase a terminar o prazo e tudo indica que os diabinhos irão acabar a obra a tempo e horas”.
“Estás enganado. Se fosse assim, eu nem sequer te aparecia, e ainda aqui estou para te ajudar a resolver o assunto. Assim que o Diabo colocar a última pedra, atira este ovo ao longo da ponte.”
O homem recebeu o ovo que a fada lhe passou para as mãos e ficou-se a olhar para ele. A sua credulidade não obtinha qualquer luz para descortinar como é que um frágil ovo era capaz de resolver o seu problema.
A fada foi-se embora, envolta numa nuvem de fumo e ele ficou entregue à proposta esquisita.
O cristão assim fez. Um minuto antes da meia-noite, quando o Diabo estava a colocar a última pedra, atirou o ovo e este partiu-se. De dentro, como por encanto, saiu um galo preto e cantou. Ludibriado, julgando ter perdido a aposta do contrato, uma vez que ainda não concluíra o trabalho, o Diabo deu um estouro e nunca mais por ali passou.