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quinta-feira, 23 de agosto de 2018

FORNOS DE ALGODRES - A LAJE DA RAINHA (120)


Depois de muitas insistências de uma rapariga de Algodres, o povo acabou por lhe dar ouvidos. Ela dizia que sonhava várias vezes com uma senhora toda vestida de ouro, com uma coroa na cabeça, que montava um cavalo também todo branco.
“Se tem coroa na cabeça é por lá rainha”, diziam-lhe, meio a sério meio a rir. “Sendo isso, anda à procura do trono.”
“Se vocês não acreditam, deixai.”
O povo não acreditava, mas acreditava ela. Do sonho passou para a realidade e deu-se a vigiar o sítio onde a mulher aparecia.
E certa vez aconteceu.
A trote, lá vinha ela, a tal senhora coroada, sobre o tal cavalo branco e dirigia-se para a Misericórdia. Depois desaparecia tão depressa como aparecera.
“Ela apareceu! Ela sempre apareceu em cima do seu cavalo branco!” gritava a rapariga.
Quando falava naquela dama, a rapariga era tomada de êxtase. Jurava e trejurava que a tinha visto, tal qual o sonho, com aqueles mesmos olhos que a terra havia de comer. E como a moça era tida como ajuizada, muitos creram nas suas palavras.
“Não ponhas mais na carta, havemos de ir lá ver essa tua senhora”.
Juntaram-se os mais crentes e outros tantos que duvidavam numa noite no largo da Misericórdia para confirmarem as aparições da tal cavaleira, mas nada apareceu com essa figura.
Nas noites seguintes continuaram as vigias, mas da dama não viram sequer a mais ténue sombra.
“Deve ser obra de algum engraçadinho, vestido de mulher, que quer mangar á custa da gente da terra”, disse um dos mais velhos do grupo de vigilância.
“Foi-nos bem feita! Para que nos havemos de fiar em sonhos?”, disse um dos homens do grupo, para quem a perda de sono não foi recompensada com a visão da cavaleira rainha.
“O cavalo é todo branco e as crinas são brancas como a neve”, defendeu-se a sonhadora, a lembrar que, se fosse paródia de algum engraçadinho, na terra não havia uma única cavalgadura dessa cor.
Estavam alguns para desistir, coléricos e despeitados, quando se deu o encontro. Estava-se na décima terceira semana do ano, passadas três luas cheias desde o primeiro de janeiro, marcando o calendário o dia 13. Eram precisamente 3 horas e 13 minutos quando viram surgir, vindo da Praça, o cavalo branco com uma donzela de vestes douradas, debruns de azul e ornamentos de estre-las, que se dirigia a trote para o castelo. Não lhes deu tempo nem ânimo de perguntarem quem era ou simplesmente darem-lhe a salvação de cortesia.
“Vem lá de casa de Deus ou do Diabo, sentada no cavalo direita como um espeque de feijoeiro, de nariz empinado e nem a boa-noite nos desejou”.
Depois deste encontro, que provava ter consistência do sonho da rapariga, juntou-se mais gente nas vigílias, revezando-se uns e outros para não deixarem passar uma noite em claro. Pretendiam chegar ao entendimento com a estranha personagem e os motivos da sua visita a Algodres.
Houve alguém que alvitrou uma hipótese, logo corroborada como certeza pelos que ouviram estar a visita relacionada com as pedras do antigo castelo arruinado, as quais serviram para a construção da igreja da Misericórdia, em 1621, pelo vigário de Algodres e o abade de Infias. Lá seria a rainha do castelo que vinha em busca do que era seu.
Assim se passaram 13 dias, até que na laje apareceu um anão de orelhas pontiagudas e a dama a cavalo, vindo o anão à frente e a esforçar-se por não ser pisado pelos quartos dianteiros do animal.
Enquanto o anão ficou a descansar da correria no centro da praça, a dama troteou com o cavalo em círculo, como se estivesse em arena, sem dirigir palavra a quem quer que fosse. Depois de três voltas, regressou para o centro e, empinando o cavalo, deixou descair as rédeas que o pequeno súbdito se apressou a agarrar.
Foi então que, com as rédeas seguras pelo anão, a dama régia se levantou nos estribos e dirigiu a palavra a todos os que estavam presentes:
“Sou quem sou. Tratai-me por rainha e quero informar-te, Algodres, que sejas como Jeremias, profeta de Jerusalém, pois vais ter vários fogos na Barroca, ladrões que serão à chusma entre franceses, castelhanos, africanos e até daqui naturais. Terás de deixar a sede do concelho para a aldeia de Fornos. Vais crescer para o lado da Rasa e serás uma terra bela, acolhedora e apetecível”.
O que é certo e sabido, segundo as fontes locais, Algodres assenta no cume da serra do seu nome, a altitude de 700 metros, de onde contempla o seu antigo alfoz agora distribuído a Fornos de Algodres, como se fosse uma soberana.
Não sabemos se Algodres teve castelo como Celorico, Linhares, Aguiar da Beira e Trancoso, mas tem-se por assente que existiu, tendo a pedra das suas ruínas servido para a construção da Igreja da Misericórdia.
Depois destes vaticínios, a dita rainha regressou por onde tinha entrado, com o anão a seguir com dificuldade o trote do cavalo.
Aquele sítio passou a ser conhecido por Laje da Rainha.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

CELORICO DA BEIRA - A MOURA DA RAPA (74)

Na Rapa, um homem de nome Miguel, sonhou que uma moura estava encantada no sítio do Alambique. Foi com alguma esperança que o sonho lhe trouxe a possibilidade de se tornar rico e de dar uma grande reviravolta na vida. Por isso, nessa mesma manhã foi até ao tal sítio do Alambique sem dizer nada a ninguém. E efectivamente encontrou uma moura sentada e repimpada, que tinha ao seu lado muita riqueza em ouro.
Não ficou ele inebriado pela sorte que lhe batera à porta através do sono. Para seu espanto e alguma dose de receio, a mulher, apesar de muito bonita, tinha o corpo de uma cobra da cintura para baixo. A agravar esse aspecto, de vez em quando soltava ela da boca uma língua bífida, igualzinha à das serpentes.
O Miguel ficou paralisado e a pensar no que devia decidir.
Esteve vai não vai para dar meia volta e sumir daquele sítio, mas a tentação da riqueza que lhe aparecia em sonho foi muito mais forte.
Aquela espécie de mulher tentou-o assim com voz amorável:
“Vem até mim, bom homem”, convidou a moura com um largo sorriso. “Podes crer que é para o teu bem.”
“Não és mulher nem és cobra, tenho receio de me chegar e ser mordido com algum veneno, ora essa!”
“Tolice a tua. Já viste ou ouviste alguma serpente falar? E já encontraste alguma com uma cabeça como a minha, com este rosto bonito como não há na Rapa? E ainda há pelas gentes desta terra que tenha tantas riquezas como estas?”
“Nada não”.
“Pois fica sabendo que eu só me apresento assim por estar encantada da cintura para baixo e não da cintura para cima. Sabes o que isso quer dizer?”
Ele meditou, encolheu a beiça e condescendeu:
“Quer dizer que és mulher e que te encantaram da cinta para baixo.”
“Nem mais”.
Ele ficou mais calmo e decidido a não fugir dela. A voz da mulher era doce e agradável. Para mais, ela estava adornada com louçanias e copiosa profusão de jóias na metade que correspondia ao tronco de mulher.
“Se ele é isso, vou aceitar chegar-me um pouco mais, pois tenho tanto medo das cobras, que me pelo!”
A moura recebeu-o com agrado e colocou à sua disposição todas as riquezas que ele via, expostas como se estivesse em tenda de feira franca, especialmente um valioso galo de ouro de tamanho natural.
“Miguel” continuou ela, como se já o conhecesse há muito, “esta riqueza é toda tua, mas tens de me deixar fazer uma coisa…”
“Pois sim, não seja por isso. O que queres de mim?”
“Deixa-me beijar-te e meter a língua na tua boca”.
Ele não achou graça à proposta e recuou, enojado:
“Ui! Isso é que não!”
Ela soltou a língua bifurcada e insistiu:
“Não te farei mal, pois quero ser desencantada; e tu, no fim de aceitares o que te proponho, ficarás rico, muito rico!”
A língua dela bailava como se fosse uma serpentina.
“Nessa é que eu não me fio.”
Ela insistia, ele negava.
Estavam eles naquela como se a moura quisesse, contra o gosto do homem, uma nova razão do pecado original.
Deitou-se ao galo de ouro, arrancou-lhe a crista e fugiu, deixando a mulher e cobra a gritar como ele, sabia o que tinha a fazer após a própria recusa.
Vendo que ela queria ser desencantada daquela maneira, deitou-se ao galo de ouro, arrancou-lhe a crista e fugiu, deixando a mulher e cobra a gritar:
“Miguel, meu ingrato, que dobraste o meu encanto!”
O homenzinho nem sequer ouviu as últimas palavras. Levava uma vaga amostra do conjunto das riquezas, no entanto suficiente, na opinião dele, para se governar bem governado.
Do mesmo que teve artes para ludibriar a moura encantada, assim o Miguel tratou de passar a patacos aquela crista de ouro. Mas não ficou indeciso sobre o dilema do que podia render ou não aquela crista de ouro. Nem decerto fazia ideia quanto lhe podia render, podendo ser o suficiente para compor a vidinha, não fosse ele enganar-se e negociar com um ourives matreiro.
“Não vou trocar o ouro em Celorico, onde já me conhecem e julgarão que o roubei, o que nem é mentira nenhuma”, pensou ele, já penetrado pela cobiça. “Talvez a vá vender a Trancoso, à feira ou a um dos mercados, que há por lá muitos”.
Tanta prontidão na troca podia ser fatal. Em Trancoso, onde já tinha estado, podiam reconhecê-lo e estranhar tão boa peça nas mãos de um zé-ninguém, ou ainda estar sujeito a outros juízos que chegassem aos ouvidos das autoridades. E, sendo assim, o que lhes iria dizer? Que tinha recebido o ouro, de mão-beijada, de uma mulher que da cintura para baixo tinha o corpo de serpente?
Mais longe iria fazer o negócio. Talvez em Vi-seu, mas era muitas léguas mais longe que a Guarda, onde ainda não tinha ido alguma vez na vida.
Por fim, tomou a decisão. Ia até à capital do seu distrito.
O Miguel tratou de ir vender a crista do galo à cidade da Guarda e aí deram-lhe bom dinheiro por ela.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

ALANDROAL - O ALGEMADO DE TERENA (4)


À ermida de Nossa Senhora da Boa Nova, em Terena, anda ligada uma lenda. Esta ermida é muito antiga e é do tipo fortaleza, muito raro em Portugal. A ela anda ligada uma lenda.
Havia há muito tempo uma prisão junto do mar onde um homem se encontrava algemado de pés e mãos. Este homem tinha sido condenado ao cativeiro em masmorra, acorrentado por ferros nas mãos e pés, como se já não bastasse ter sido enclausurado num calabouço de onde seria difícil fugir.
Este homem estava inocente. Clamava inocência e ninguém acreditava nele, desde o juiz que o condenou até aos beleguins que o trouxeram amarrado para cumprir a pena. Nem mesmo o carcereiro, que o via todos os dias, o tomava por pessoa inocente, limitando-se a deixar-lhe alguma comida e água, indiferente à imobilidade da clausura do homem.
Certo dia, levava-lhe o carcereiro a comida quando viu que as algemas tinham desaparecido. O homem encontrava-se no cárcere, como sempre, mas tinhas as mãos e os pés livres e os instrumentos que o detinham não se viam em lado algum.
O carcereiro perguntou-lhe:
“Como conseguiste libertar-te? O que fizeste às algemas?”
O homem encolheu os ombros, também perplexo:
“Eu não fiz nada. Elas desapareceram!...”
“Não pode ser. As algemas não desaparecem assim, sem mais nem menos…”
De novo foi algemado e acorrentado, mas de nada valeu. No dia seguinte o homem estava de novo livre dentro da cela.
“Raios partam o diabo!” gritou o carcereiro. “É possível que as algemas se desfaçam em fumo?”
Mais uma vez as algemas foram redobradas, depois de verificado que as mesmas não tinham uma única pinta de ferrugem, As correntes eram grossas e sólidas e as argolas embutidas na parede eram capazes de resistir aos puxões de uma junta de bois.
“Vamos ver se desta vez os grilhões acabam por sumir como aconteceu com os demais. Vais ficar aí, pois não haverá força que te tire desta prisão”.
O preso, também ele intrigado, apenas disse:
“Assim o quis a minha desventura.”
Mais uma noite se passou e o carcereiro, logo pela manhã procurou na cela o resultado da nova segurança. O prisioneiro não era capaz de se libertar, visto não ter força suficiente para quebrar as argolas dos grilhões e na cadeia, fechada com portas de ferro, ainda por cima trancadas, não permitia ajuda de fora. Para além disso, nem sequer se via no chão de pedra qualquer indício dos grilhões ou sequer a limalha que ali ficaria depositada se fosse cortada.
As portas estavam todas fechadas e os sinais que tinha posto nos buracos das fechaduras estavam no mesmo lugar, assim como as trancas no preciso sítio em que as deixara.
Quando o carcereiro abriu a porta da cela e ali penetrou ia-lhe dando um chelique. O prisioneiro estava de pé, no meio da enxovia, com ar sério, totalmente liberto dos membros.
“Viva quem é, senhor carcereiro”, saudou o prisioneiro com ar igualmente intrigado.
“Será que não tens resposta para isto, excomungado? Será que tu és um feiticeiro e estás aqui para caçoar comigo?”
“Não é caçoada. Sabe Deus o que terá acontecido, pois não vi nem senti ninguém nesta pequena cela.”
“Por este andar, um dia destes acabas por sair disparado pelas paredes e eu terei de prestar contas ao senhor juiz.”
Desta vez o preso parecia ter uma explicação:
“Pois o que posso afirmar é que as algemas devem encontrar-se na ermida de Nossa Senhora da Boa Nova, em Terena.”
“E quem as levou para lá?”
“Não sei.”
“E como é que sabes disso, se ainda não saíste daqui?”
“Também não sei”.
O carcereiro encarou o preso como se ele fosse um animal do outro mundo.
“É um mistério! Nem tu dás conta que tas tiram, se não é tua manigância livrares-te delas?”
“Sei que fico subitamente libertado, sumindo-se todas ao mesmo tempo como se fossem levadas pelo ar. Não me apercebo de passos ou de portas a abrir, não ouço o tilintar dos ferros. Nada de nada!”
O carcereiro estava tão estupefacto que não sabia o que havia de fazer. Ia chamar os beleguins, o alcaide, o juiz e até, se fosse possível, que viesse ali o rei para ver com os próprios olhos.
O prisioneiro também não podia dar outras explicações, a não ser aquela que mais lhe pareceu consentânea com o caso.
“Julgo que foi Nossa Senhora que as levou”, acabou por dizer o preso, “pois não quererá ver preso quem está inocente.”
O preso tinha razão, as algemas foram encontradas na ermida de Nossa Senhora da Boa Nova. Estavam lá todas, inteirinhas, sem sinal de cortes. O milagre comprovara a sua inocência e, por isso, soltaram-no.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

AGUIAR DA BEIRA - A FRAGA DO MEDRONHEIRO (3)


Proclama-se esta lenda como sendo de Pena Verde.
Arrumada a Feira dos Vinte, em Moreira, lugar da freguesia de Pena Verde, ficou um queijeiro de Valverde entretido com uma súcia de amigos, brindando ao negócio que lhe veio nesse dia de feição.
Não obstante ter cuidado do bucho com a pinga, a boa pomada do lugar, e de ter por companhia aqueles com que melhor privava, veio o queijeiro a dar-se por quite de rambóia, despedindo-se dos camaradas. Deu largas ao macho e pôs-se a caminho da sua terra. Meteu pela mata, por atalhos velhos e pedregosos, a cantarolar como um passarinho, pois lá levaria o seu “grão na asa”.
A determinado passo, calhou ver em sentido contrário à sua marcha, duas mulheres que caminhavam em passo mais comedido. Uma delas era ainda nova, rapariga casadoura, enquanto a outra, que parecia mancar com o amparo de uma varinha, era velha e rugosa como tronco de pinheiro.          O queijeiro, à sua guisa de cumprimento, mais para a velha do que para a companheira, chalaceou como se versejasse:

“Adeus lugar de Moreira
Terra de muita feiticeira!”

Pararam nova e velha, ferindo-o esta última com olhar viperino. E foi também a mais idosa, com ar de ferocidade, que largou a aguilhada:
“Pedaço d’asno! Vais-te arrepender com língua de palmo por largares a bosteira!”
A mais nova, já conhecendo em que azeites fritavam os fígados da mais velha, acalmou-a.
“Deixe lá, senhora mãe! O raio do homem vai perdido de bêbado!”
Vista a resposta, o queijeiro baniu a réplica, tentou dar alguns passos sem vacilações, abanou os braços e sumiu-se nas brenhas.
Andou e andou até que a noite o apanhou de tal sorte que não conseguia enxergar cisco à frente do nariz. O homem, que não vinha desperto em todos os sentidos, esfregou os olhos e estacou. Tinha-se perdido no meio daquelas matas, ele que conhecia o caminho como a palma das suas mãos.
“Quem me mandou tardar na feira? Já me dizia o meu pai, que Deus tenha: tão grande é o erro como o que erra.”
Pelo seu lado, a alimária já dava mostras de desassossego e largou sem dizer adeus por um caminho vesgo. O dono apenas lhe sentiu o matraquear das patas no chão e foi um ar que lhe deu!
“Volta aqui, alimária do diabo! Não é do meu entendimento ter-te dado carta-branca para ires sem minha ordem!”
Atarantado, o queijeiro correu por ali às cegas, gritando por todas as almas do outro mundo e das que para lá haviam de ir até cair exausto.
Quando chegaram os primeiros raios de luz, o homem ergueu-se e deu em procurar a bestinha, quando encontrou no caminho dois homens que vinham em sentido contrário ao seu.
“O compadre vai aflito” reconheceu um deles. “Será que perdeu alguma coisa?”
“Deus se amerceie de mim! Perdi o cavalo que se deitou a fugir com a carga de queijos que sobraram da feira.”
“Deus se amerceie de ambos, pois há por aqui muitos lobos em jejum.”
O outro homem concordou.
“Quando sentem coisa para comer, juntam-se todos e vêm num foguete!”
Aquelas palavras não eram animadoras, mas o queijeiro achou que não era momento para se achar meditabundo.
“Se os meus amigos me fizerem o favor, três a procurar é melhor do que um”.
Os três andaram para um lado e para o outro, até que um deles encontrou alguns queijos no chão, na zona de fragas e barrocos que é conhecida por Medronheiro, onde existem fragas altas como ciclopes. Os poucos queijos sobejos estavam espalhados pelo chão e o machinho morto, entalado na brecha entre dois penedos. Com o nevoeiro e o medo dos lobos, o animal entrara naquela fenda e já não conseguira sair.
“Desgracei a minha vida por más palavras! Foi maldição da velha de Moreira!”
Assim gritou o pobre queijeiro, arrepelando-se, enquanto chorava baba e ranho.
Não era hora para tendências de mofa e reinação, perante o choro do queijeiro; no entanto, um dos homens, adivinhando que ali havia maldição, não deixou de fazer valer a razão do aforismo popular:
“As palavras fazem muitas vezes mais que as pancadas.”
Ao outro dia, o queijeiro entrou na igreja de Valverde. Ia cabisbaixo e naturalmente triste, ele que não era homem de frequentar a igreja. Entre duas orações, confessou:
“Fiquei sem os meus bens, por culpa minha os perdi. Perdoe-me, Senhor, pelo que eu disse. As mulheres de Moreira não são feiticeiras”.
Benzeu-se, saiu da igreja e aprendeu duas lições: não fazer serão na feira e ter tento na língua.

domingo, 19 de agosto de 2018

ÁGUEDA - O DIABO DO ALFUSQUEIRO (2)

Na freguesia de Préstimo e cerca da aldeia de A-dos-Ferreiros, o termo desta freguesia e ambas do concelho de Águeda, existe uma ponte sobre o rio Alfusqueiro.
O rio Alfusqueiro é um rio afluente do Rio Águeda que nasce na serra do Caramulo no concelho de Vouzela perto de Carvalhal de Vermilhas, e que passa por Cambra, Campia, Destriz e Préstimo indo desaguar em Bolfiar depois de percorrer 49 quilómetros.
Diz a lenda que um cristão encarregou-se da obra, mas quando a decidiu começar encontrou uma tarefa difícil, quase impossível. Mediu, tornou a medir, fez cálculos, refez esses cálculos meia centena de vezes, não havia volta a dar. A ponte não podia ser construída por mão humana, tais as formas do terreno e do curso de água.
“Grande obra, mestre pedreiro, grande obra!”
“Cá me sinto apoquentado por ser assim tão grande e eu tão pequeno para a fazer”.
“É também a minha opinião”, disse-lhe o Diabo.
“E porque assim é, estou aqui em desespero. Se me nego, perco tudo o que tenho; se a vou fazer, nunca a acabo e tudo perco na mesma. Se não for escravo, serei cativo. Se me fico, serei as duas coisas”.
“Então tu aceitaste uma empreitada daquelas em que todos os braços são poucos? Onde estavas com o juízo, homem?”
“Bem dou conta agora…”.
O Diabo colocou-lhe uma das peludas mãos no ombro.
“Não te preocupes, que eu e os meus ajudan-tes fazemos a ponte para ti.”
“Deveras?!”
Uma oferta daquele género garantia um saldo positivo a favor do construtor, fosse ele o Diabo ou outra coisa qualquer. Serviço feito e garantido. Ora isso não contava? Sou um louco responderia negativamente.
“Fico-te agradecido”, aceitou o homem.
“Mas não tens de agradecer, pois negócio é negócio. Em troca deste favor, entregas-me a tua alma.”
O homem encarou o Diabo, proclamado tentador em todas as homilias da igreja, sendo certo que mais tirava do que dava. Não era conhecido por ter instinto esmoler ou por apóstolo da caridade.
Como se não tivesse percebido bem, interrogou:
“A minha alma?”
“Vamos lá, homem” proferiu o Mafarrico com ar risonho e sorriso aberto, ciente da complacência e da fraqueza do humano. “É favor por favor. Eu construo a ponte sem tu mexeres um único dedo dos pés ou das mãos; tu apenas me entregas a alma, de que nem sequer dás conta”.
Passou para as mãos do homem uma escritura e disse-lhe que a devia assinar com o próprio sangue.
“Não precisamos de fiador” garantiu o Diabo, que a sabia toda, “pois o teu sangue faz as mesmas vezes.”
O homem assim fez e assinou o documento com o próprio sangue. O Diabo confirmou:
“Comprometo-me a acabar a obra no dia de Natal, ao cantar do galo, à meia-noite. Dou a palavra de honra, tanto mais que mais custa apanhar uma alma que construir uma ponte.”
Logo no mesmo instante apareceu um regimento de trabalhadores, todos eles diabos, que em turnos de noite e dia levaram de frente a construção da ponte sobre o Rio Alfusqueiro.
O Diabo e companheiros continuaram a obra e na data aprazada estavam prontos a dá-la por terminada, à meia-noite em ponto, conforme constava do contrato. Não comiam nem bebiam, não trocavam palavras uns com os outros e não faziam folgas sequer para secar o suor. Nem precisavam de capataz, uma vez que nenhum deles tinha vontade de andar à rédea solta, como era muito comum nas obras em que o pedreiro participava.
O homem via diariamente a ponte a ser cons-truída. E agora que via a ponte quase concluída, desejava no seu íntimo que os obreiros do inferno não acabassem a obra no dia de Natal à meia-noite ao cantar do galo.
Foi então que uma fada apareceu ao homem e aconselhou:
“Fizeste um negócio ruinoso para tua perdição. Tudo neste contrato foi feito para te apanhar a alma, pois o Diabo é do que mais aprecia”.
“Já é tarde para voltar atrás. Está quase a terminar o prazo e tudo indica que os diabinhos irão acabar a obra a tempo e horas”.
“Estás enganado. Se fosse assim, eu nem sequer te aparecia, e ainda aqui estou para te ajudar a resolver o assunto. Assim que o Diabo colocar a última pedra, atira este ovo ao longo da ponte.”
O homem recebeu o ovo que a fada lhe passou para as mãos e ficou-se a olhar para ele. A sua credulidade não obtinha qualquer luz para descortinar como é que um frágil ovo era capaz de resolver o seu problema.
A fada foi-se embora, envolta numa nuvem de fumo e ele ficou entregue à proposta esquisita.
O cristão assim fez. Um minuto antes da meia-noite, quando o Diabo estava a colocar a última pedra, atirou o ovo e este partiu-se. De dentro, como por encanto, saiu um galo preto e cantou. Ludibriado, julgando ter perdido a aposta do contrato, uma vez que ainda não concluíra o trabalho, o Diabo deu um estouro e nunca mais por ali passou. 

sábado, 18 de agosto de 2018

ABRANTES - POR CIMA E POR BAIXO (1)

Em Abrantes existia um casal que parecia ser muito feliz. O homem dizia bem da mulher e a mulher não dizia mal dele. Não se ouviam discutir, estava tudo aparentemente muito bem como se aquele fosse o par ideal.
Havia alturas em que a mulher, vendo o marido cansado, fazia um chá para ele ia levar-lho à cama. Dormia então o homem descansado, acordando no dia seguinte com muito melhor disposição e desenfado.
Os habitantes da aldeia não estranhavam que pudesse haver qualquer mistério naquela relação que era aparentemente feliz. E muito menos a más-línguas, como é comum nos lugarejos, terem matéria para relatar algum caso que suscitasse perplexidades.
No entanto, alguém andava a dizer ao marido que a mulher era uma bruxa, mas o homem não acreditava.
“Nem me diga isso, que ela nem é bruxa nem vai às bruxas.”
“Pois acredite, por muito que lhe custe e por demais ser ela tão boa para si.”
“Ela é tão boazinha que me leva o chá à cama”, assegurava o marido.
“Assim será” anuiu o informador”. Mas ande então o senhor mais desperto e deixe de beber o chá”.
A mesma pessoa lá vinha novamente com a mesma ladainha e, apesar de o marido, que era sapateiro, continuar a negar e a prometer arrancar os cabelos se fosse verdade, o certo é que foi amolecendo na sua convicção e resolveu tirar as coisas a limpo.
Aquela “cerimónia” do chá, pensando bem, deixava-o numa noite tranquilo, tanto assim que mal o tomava, adormecia e dormia como uma pedra. De resto, nada mais havia de estranho no comportamento da companheira.
Numa noite, decidido a fazer a prova dos nove, fingiu que bebeu o chá que a mulher lhe levou e ficou desperto. Ficou a espreitar o que a mulher fazia, depois de a ver sair do quarto com a certeza de que o tinha deixado a dormir, e a bom dormir.
Levantou-se sem fazer barulho e, pé ante pé, seguiu-a até à cozinha, onde ela tinha acendido uma vela. Viu-a então despir e besuntar o corpo com uma pomada que tinha escondido por ali. Depois daquela operação, feita em três tempos, ela comeu um ovo cru com chouriço e disse:
“Avoa, avoa, por cima de toda a folha!”
E desapareceu.
O homem, que queria saber o que tinha acontecido, besuntou-se com a mesma pomada e comeu o ovo e o chouriço. Como ela invocou “por cima de toda a folha”, ele pensou que ela ia voar alto, como o faziam as bruxas; mas ele, que não era de altos voos, achou por bem voar mais baixinho. Então, por sua vez, recitou:
“Avoa, avoa, por baixo de toda a folha!”
Nesse momento o homem saiu a voar pela porta fora e, para seu mal, em vez de voar por cima, voou por baixo, em voo rasante, de modo que o seu pobre corpo roçou por silvas, tojos, ramos de árvores e tudo o que apanhou, antes de aterrar num terreiro onde as bruxas se reuniam. Estava todo arranhado, bem amolgado no corpo que lhe doía como se tivesse levado uma sova. O unto que pusera no corpo, pelos vistos, dava-lhe asas mas não o protegia dos obstáculos.
Sempre o homem que o avisara tinha razão. A mulher lá estava na assembleia, parecendo-lhe até que presidia entre as demais. O ajuntamento era ao ar livre, numa encruzilhada de caminhos e era quase todo preenchido por mulheres, que ele não reconheceu a não ser a sua. Porém, entre elas andava um homem com aspecto esquisito e que também parecia dar ordens, inclusive sobre a sua mulher.
Houve uma voz na cabeça do homem que lhe segredou: cumpre o teu dever, aconteça o que acontecer.
Saiu então ele do sítio onde se escondera e de onde presenciou a cena e apareceu no terreiro, agora andando pelo seu pé.
A mulher, ao vê-lo todo arranhado, admoestou:
“Não devias estar aqui. Quem te mandou cumprir as regras que não são tuas?”
“Vim saber o que se passa…”
“Fizeste muito mal.”
“Ora, mal daqui, pior dali, vale mais um testemunho de vista que dez de ouvido.”
“Nem sabes onde te vieste meter, desmiolado marido!”
Ela pegou-lhe por um braço e, tomando-o de parte, segredou:
“Já que estás aqui vais beijar os pés a Nosso Senhor!”
“E quem é esse Nosso Senhor, que não o vejo?”
“É aquele homem que ali está” esclareceu ela, apontando o tal de mau aspecto.
Desta vez precavido, o homem olhou para onde a mulher apontava e temeu que, em vez de Nosso Senhor, fosse o Demónio. Sempre tinha ouvido dizer que o Diabo costumava aparecer nas assembleias das bruxas e que com elas bailava e fazia mil diabruras.
“Assim o farei, desde que ele tenha os pés bem lavados”, concordou o marido indo de encontro ao dito senhor que o aguardava com ares de superioridade.
Vai daí, ajoelhando-se como se fosse para beijar, picou o outro num pé, com uma sovela que tinha nos bolsos, e o Diabo estoirou. 

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

IDANHA-A-NOVA - LENDA DO REI VAMBA

Morto o último rei dos visigodos, era necessário encontrar-se um sucessor, pois o povo temia pela sorte do império. O conselho dos godos reuniu e ficou decidido consultar o Sumo Pontífice, uma vez que o trono sem rei fazia com que o reino corresse perigo.
          O Sumo pontífice disse:
“Deus revelou-me que o novo monarca será um homem bom, de ascendência real e virtuoso. Disse-me que ele vive algures, ignorado, entregue ao amanho das suas terras.”
“E como o reconheceremos?”
 A esta pergunta de um dos membros da Cúria Romana, o papa esclareceu:
“Ele estará a lavrar com um boi branco e outro castanho.”
“Mas será difícil saber qual o escolhido, pois muitos lavradores lavram com bois dessa cor.”
“E todos os lavradores têm uma vara, com a qual incitam os seus bois na arada. A todos os lavradores que forem vistos com bois brancos e castanhos na lavra, incitai-os a espetar a vara na terra. Se a vara que ele tiver na mão florir é sinal de que esse é que é o rei dos visigodos”.

Enviou emissários em sua procura e todos eles seguiam com as instruções: um homem a lavrar com um boi branco e outro castanho, o qual ele devia espetar a vara dos bois na terra e, se ela florisse, era sinal de que ali estava o rei dos godos.
Alguns lavradores encontraram os emissários nas respectivas aradas com um boi branco e outro castanho. No entanto, quando lhes pediram para enterrar no solo a ponta da vara, nada acontecera.
“Não me parece que o rei possa ser encontrado desta maneira” disse um dos emissários. “Como é que uma vara seca e velha, só porque se enterra a ponta dela na terra, dá em florir naquele momento?”
“Se é a revelação de Deus” disse outro emissário “certamente existirá esse lavrador e será ele o grande rei esperado”.
Depois de muito percorrerem as estradas e os caminhos, os emissários papais chegaram à região da Egitânia.
A Egitânia foi o nome dado pelos suevos e visigodos a uma cidade fundada pelos romanos em território que corresponde ao Portugal actual, a cidade dos Igeditanos, o que corresponde a Idanha.
Depois de alguns dias sem sucesso algum, os emissários encontraram um homem a lavrar com os seus bois, sendo um deles branco e o outro castanho.
Como já tinham inquirido anteriormente muitos lavradores com bois idênticos a puxarem o arado, não se iludiam com esperanças vãs. Porém, era mais uma tentativa, sendo certo que a questão mais importante se situava na vara que floria mal fosse enterrada no solo.
Estava um intenso calor e o homem suava segurando a rabiça do arado.
“Como vos chamais, bom homem”, começou um dos emissários.
“Chamo-me Vamba, meu senhor.”
“Esta terra é vossa?” inquiriu outro dos emissários.
“Sim, é minha. Já foi dos meus antepassados, de quem a herdei.”
“Por que vos esforçais nesta vida dura do campo, de sola sol, e ao frio, à neve e á chuva, como agor sob este intenso calor?”
O lavrador sorriu e respondeu:
“Adoro a terra e tudo o que ela dá. Louvo a Deus por me continuar a dar forças para ganhar o pão para a boca e por me perdoar os pecados.”

“Essa é uma boa razão, lavrador.”
“Essa é a razão do meu esforço”.
 Os emissários olharam para a vara que o lavrador tinha nas mãos. Era um pau vulgar, duro, igual a tantos outros que tinham encontrado. Pensaram que aquela seria mais uma das infrutíferas buscas para encontrar aquele que havia de ser rei.
“Peço-vos, lavrador, que enterreis a ponta dessa vara que tendes na mão na terra que acabais de lavrar.”
“Se o pedido tem razão de ser, posso saber qual é?” interrogou o homem, desconfiado pelo estranho pedido.
“Se fordes o eleito, aí se tirará a prova.”
“Eleito para quê?”
“Para rei”.
O homem achou ainda mais estranha a razão do pedido e até pensou que aqueles senhores muito bem trajados e com ares de serem da corte, quisessem mangar com ele.
“Pois seja como pedis, meus senhores.”
Ergueu um pouco a vara e, após alguns instantes com ela no ar, enterrou a ponta na terra. No mesmo instante, daquele pau seco começaram a aparecer rebentos e a florir, ganhando folhas. Todos ficaram mudos de espanto, incluindo o próprio lavrador.

“É ele!” gritaram em uníssono os emissários.
“Este é o novo rei, o rei Vamba” proferiu com solenidade o emissário que chefiava a expedição. “Acompanhai-nos, senhor, pois sois vós o eleito de deus para rei dos Visigodos.”
Vamba foi coroado rei em Toledo. Foi ele que fundou o castelo de Rodão. Depois de ter reinado alguns anos, de 672 a 680, cortou as barbas e tomou o hábito de S. Bento.