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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

SEIA



Nas margens do rio Alva, no Sabugueiro, em plena Serra da Estrela, passava um rapaz com o seu cão por um sítio quando lhe chamou a atenção o que se encontrava sobre um penedo. Eram uns poucos de figos que ali estavam espalhados ao sol e já se encontravam secos.
Nem de propósito! Ela estava em jejum e aqueles figos vinham mesmo a calhar para acomodar o estômago, que já estava a pedir satisfações.
O rapaz ia a lançar-lhes a mão quando uma voz, vinda do interior do penedo – que devia ser a porta de alguma gruta – o advertiu:
“Eia, lá! Deixa os figos!”
O rapaz já tinha um figo na mão, mas largou-o logo.
“E quem é que me proíbe?”
“Dou-te os figos”, retorquiu a voz, “se me deres o cão ou os safões de pastor que trazes a tapar as pernas.”
O cão deu uns latidos como se compreendesse o pedido e o destino que lhe reservaria se fosse ele o escolhido.
O rapaz, recuou uns passos e respondeu à voz:
“Não dou uma coisa nem outra!”
A voz era de mulher, mas não se deixava ver quem proferia as palavras. Até podia ser algum monstro, um mero salteador dos caminhos ou, na melhor das hipóteses, um nostálgico desdenhoso que quisesse mangar com ele.
O estômago que esperasse um pouco mais, pois aqueles figos podiam trazer alguma coisa ruim. E deitou a fugir daquela assombração. O cão, sem deixar de ladrar, ainda corria mais.
Ao olhar para trás, enquanto dava às pernas, viu uma mulher bonita que lhe pedia um beijo:
“Não vás, meu lindo, não vás!”

Ela tinha o corpo dividido em duas metades que se juntavam num burlesco conjunto: metade era humana e a outra metade, da cintura para baixo, era de cobra.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

AGUIAR DA BEIRA


A serra do Picoto, como filha da serra da Lapa, é áspera e nua como estopa de linho no sítio em que as rochas se estendem pelos cumes, encabritados uns sobre os outros. Quando as neves e os sincelos se derretem nos fraguedos descarnados de vegetação, os raios de sol fazem nas rochas o cintilar da prata e do ouro.
Uma ala do exército francês, que invadira Portugal, correndo em direcção a Viseu, sob o comando de um oficial de Massena, passou por Gradiz e subiu a Monções, chegando os soldados a esta povoação empinada muito esfalfadinhos da subida a mata-cavalos e mais encharcados em suor do que trapos de cozinha.
Ora, essa subida é puxada e, apesar da belíssima paisagem abundante e luxuriosa, para quem não vai propriamente para a contemplar, é obra. Para aqueles chanfrados que a subiam com mochila, farda, arma, munições e outros apetrechos bélicos, sobrava-lhes o trabalho de pernas.
Ninguém os recebeu em Monções, nem de braços abertos nem com eles fechados. Não encontraram os invasores vivalma que lhes pudesse valer com uma sede de água, ou em quem se pudessem vingar por tanto sacrifício baldado de rapina. Deram em vasculhar casa por casa à cata de comida e bebida, mas a única coisa com que se regalaram foi darem azo a partir todo o caco que vissem inteiro. O povinho tinha recebido intimação para abandonar a aldeia e não deixar para trás migalha que tapasse a cova de um dente dos francesinhos.
Arrombaram a porta da capela e, achando a imagem de Santo António, erecto nas suas vestes de franciscano e com a calva monástica a luzir, propuseram levá-la com eles, pois era a única coisa de valor que encontravam naquela desolação.
O soldado que retirou a imagem estava a escondê-la, mas o oficial, que era cobiçoso, deu-lhe uma ordem:
“O santo é meu, soldado. Como não há saque nesta aldeia, esse é o único bem que levo daqui”.

Ao retomarem a marcha, despertou-lhes a atenção umas cintilações que ofereciam as lajes escorregadias da serra, porque tinha chovido na véspera e os calhaus reflectiam os múltiplos regos de água como se fossem espelhos.
Conta a lenda que, amedrontados, julgando-se tratar do exército anglo-luso, largaram a imagem do santo e deitaram a correr pela serra da Lapa como se fossem perseguidos pelo próprio Demo.
O que subsiste da lenda é a confusão dos militares: tomaram as cintilações pelo luzir frio do gume das baionetas e não esperaram pela confirmação, dando às pernas na fuga como se elas não tivessem na conta algumas léguas de subida.
Diz o povo que nesse sítio estão sete fontes que brotam, cada uma, sete fios de água.

TEXTO E GRAVURA: SANTOS COSTA


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

MÊDA



Dizem que no castelo de Longroiva viveu um valente fidalgo de nome D. Ramiro Alvar. Era um homem alto, bem constituído, bonito e bondoso, como não havia outro igual pelos castelos da região. Era solteiro e, chegado aos trinta anos, ainda não tinha pensado em contrair matrimónio.
Passado algum tempo, vindo D. Ramiro Alvar da caça ao porco-montês, viu o seu cavalo estacar repentinamente. Uma rapariga tinha saltado detrás de uma sebe e alvoroçara-se com o aparecimento da montada e do cavaleiro. O receio fez com que caísse ao chão, bem diante das patas do cavalo. D. Ramiro saltou para o chão e foi auxiliar a jovem. Segurou-a suave mas firmemente pela cintura. Ela não se atrevia a abrir os olhos, tomada de pânico, mas os dele estavam abertos de espanto: a jovem era uma bonita criatura; nunca tinha visto nos seus trinta anos de vida mulher com tanta beleza!
Não mais esqueceu D. Ramiro aquela bonita rapariga, a qual se chamava Rosa. Apaixona-se por ela e acaba por se casar, realizando-se uma boda memorável em terras de Longroiva e arredores.
Dois anos depois deste casamento, respondeu D. Ramiro ao apelo da guerra. Aí conheceu outro valente guerreiro como ele, que se chamava D. Gonçalo. No mais aceso da luta, D. Gonçalo caiu aos golpes dos inimigos e D. Ramiro foi em seu socorro, não permitindo que despedaçassem o corpo do infeliz companheiro.
Ferido e a necessitar tratamentos e cuidados, D. Ramiro ofereceu o seu castelo de Longroiva para D. Gonçalo repousar e ser convenientemente tratado, enquanto ele permaneceu no combate.
Ora, passado algum tempo, D. Gonçalo estava curado das feridas e fez acreditar à jovem esposa de D. Ramiro que o seu marido tinha sido morto na guerra. A notícia teve o efeito de um raio que trespassasse o corpo de Rosa. A jovem, sentindo-se viúva, fechou-se em pranto durante dias, permanecendo em luto pesado durante um ano, findo o qual acedeu aos desejos de D. Gonçalo para que o desposasse, mais dizendo o impostor, em memória de D. Ramiro, que assim o desejou antes de morrer.
Tinham acabado as cerimónias, eis que é regressado a casa D. Ramiro Alvar. Sabendo da notícia pelos seus criados e de todos sabendo as artimanhas que levaram D. Gonçalo a receber sua mulher por esposa, D. Ramiro entrou em casa e, vendo o usurpador com Rosa, desafiou-o para um duelo. Logo ali as espadas se cruzaram numa luta de morte e a lâmina de D.
Ramiro trespassou o peito de D. Gonçalo, que tombou aos seus pés. Rosa, que a toda a luta assistiu, arrojou-se aos pés do marido.
“Fazei com que essa lâmina atravesse o meu peito”, clamou ela, em pranto.
“Não o farei, pois que todos me contaram como Gonçalo vos enganou com a notícia da minha falsa morte.”
“Culpada sou por acreditar e não vos ser fiel até morrer! Mil vezes vos pedirei para me matardes; se não o fizerdes, mil vezes me arrojarei diante de vós ou diante de quem o queira fazer.”
“Perdoo-vos, Rosa. E desde já vos garanto que não responderei a esse vosso desejo, nem permitirei que homem algum o faça por mim.”
“Manterei em segredo o amor que vos tenho e soltarei noite e dia o pranto do meu arrependimento. Recuso, pois, o vosso perdão.”
Dito aquilo saiu de casa, montou a cavalo e afastou-se do castelo de Longroiva. Não olhou para trás. Mesmo que o fizesse, os seus olhos inundados de lágrimas, não deixariam ver a felicidade que deixava fugir em cada solavanco do galope da montada.

Refugiou-se na sua velha cabana do bosque. Dizem que ainda hoje, quando alguém atravessa o bosque e se aproxima da cabana, consegue ouvir o pranto da desconsolada Rosa, como hino amargo da penitência que não era merecida.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

FIGUEIRA DE CASTELO RODRIGO




Certo pastor do Colmeal, que pastava o seu rebanho na Serra da Marofa, sonhou que devia ir a Belém, onde encontraria o que necessitava. E ele foi. Não se sabe como, mas foi. Lá chegado, encontrou alguém que com ele meteu conversa e lhe disse, depois de alguma conversa à sobreposse, que também tinha sonhado sobre um tal Colmeal das Rolas; e mais: a ir lá, encontraria um chibo deitado sobre uma pedra e, por baixo dela, uma cabra com o seu cabritinho, ambos de ouro maciço.
Para apimentar a descrição, o estranho concluiu:
“À noite, as barbas do chibo transformam-se também em ouro!”
O pastor regressou à sua terra e quis verificar a veracidade da descrição do homem de Belém. Parecia-lhe impossível encontrar o que o outro descreveu, mas encontrou. Lá estava o chibo sentado, que ele de imediato afastou para retirar a pedra. Sob esta, a cabra e o cabritinho que luziam dourados aos raios do sol.
Como se tratava de um homem honrado, resolveu entregar o achado ao rei.
“Real majestade”, começou ele, “queria oferecer-vos uma cabra e um cabrito…”
O rei ficou agastado com a oferta, pois a sua despensa crescia diariamente com ofertas daquelas. E disse:
“Quero então o cabritinho, por ser mais tenro.”
O pastor abriu o saco e retirou o cabritinho de ouro, que entregou a um rei completamente embasbacado e arrependido por não ter aceitado a oferta no seu todo. Emendou ainda:
“Olha, palavra de rei não volta atrás, mas peço-te que da cabra me deixes um chifre, para fazer uma bengala. E, já agora, também te faço um pedido: quando chegares à tua terra, junge uma junta de bois e do nascer ao por do sol, todo o terreno que fores capaz de marcar com um arado, será teu.”
O homem assim fez. Assim nasceu a Quinta do Colmeal.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

MÊDA


O convento de Vilares ou de Nossa Senhora dos Remédios foi construído em 1447, a cerca de meia légua para ocidente da vila de Marialva e entre esta e Valflor. Era o convento destinado a frades franciscanos de ordem terceira e tinha por devoção precisamente Nossa Senhora dos Remédios.
Naquele convento chegaram a estar cerca de trinta religiosos, ajudando os párocos a confessar e a pregar. Viviam de esmolas.
Extinto o convento, logo se tratou do confisco dos bens patrimoniais, tanto religiosos como artísticos, sendo tresmalhados pelas mais poderosas famílias de Marialva, Carvalhal e Valflor.
Foi numa dessas distribuições que aconteceu a imagem de Nossa Senhora ter sido separada do Menino que se encontrava nos seus braços. Os de Marialva, principalmente as mulheres, queriam recuperar a imagem do Menino, uma vez que na posse deles já se encontrava a da Mãe.
Diziam algumas mulheres:
“É uma esmola e uma bênção ir tirá-lo da igreja de Valflor.”
Vai daí, teceram uma estratégia. Para isso, esperaram um dia festa com procissão em Valflor, altura em que a igreja ficaria vazia.
Três homens de Marialva entraram na igreja sem que fossem vistos e, pé ante pé, cumpriram a sua missão à risca, retirando a pequena imagem e dissimulando-a entre um pano da sacristia. Depois de assim embrulhado, com a mesma pressa e igual desfaçatez, saíram da igreja de Valflor, agora na saída com menos cautelas do que tiveram à entrada.
Talvez por isso, alguém os viu tão furtivos e deu o alarme, juntando-se meia dúzia de homens que lhes tolheram os passos.
Um deles perguntou para o que levava o embrulho:
“ O que levais debaixo do braço?”
O interpelado apenas hesitou alguns segundos e respondeu:
“É um cabritinho para o senhor padre!”
Os de Valflor encolheram os ombros. Podiam querer ver a oferta, mas isso podia ser considerado uma desfeita que faziam ao sacerdote, e abriram alas para os de Marialva prosseguirem caminho, o que estes fizeram a sete pés.
Quando os de Valflor deram conta da falta, desconfiaram de quem tinha sido a proeza, mas os de Marialva mantiveram o Menino escondido durante algum tempo até serenarem os ânimos.


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

TRANCOSO


Enquanto as gentes do povo passavam pela rua da amargura para conseguirem o pão com que matavam a fome, uma moura que assistia nos barrocos próximos do Feital dava-se ao desplante de assoalhar um riquíssimo bragal e cobiçado tesouro nas madrugadas dos dias de São João e de São Pedro. Armava o estendal ao relento, com arcas de joias, sacos cheios de dinheiro, ouros, pratas e pedras preciosas.
A moura desvanecia com o seu tesouro posto à luz da manhã, desdobrando lindas toalhas bordadas a ouro com dedal de prata. E não se sabe quantas coisas mais de valor guardaria ainda nas grutas inexploradas onde passava o seu encantamento.
Calhou certa vez a passar por ali uma mulher na companhia de uma filha pequena e a ver tão cobiçada fartura de riqueza. Em quebranto ficaram mãe e filha, mais a primeira do que a segunda.
O certo, certo é que ficaram ambas ofuscadas com o esplendor das maravilhas. Só uma mão cheia daquelas peças dava para esbanjar à larga e gozar toda uma vida repimpada de papinho para o ar.
A estranha deixou tempo à mãe e à filha para se fortalecerem com a surpresa e mais com a cobiça. Com gestos amigáveis, a moura ofereceu à mulher a liberdade de levar consigo o que lhe aprouvesse, desde que o fizesse de uma vez só. Esta, sem hesitar, com olhos piscos de tanta vesânia e cobiça, berrou para a filha:
— Ó rapariga, vai-me de um pulo a casa por via de trazeres a saca maior que lá vires.
Um pulo era um modo de falar, mas a criança não demorou a trazer o saco mais avantajado que encontrou. Mais depressa do que era preciso, ambas trataram de o encher indiscriminadamente com peças valiosas, enquanto a moura, que não ficava mais pobre por isso, seguia os gestos precipitados da ganância.
— Mexe-me essas mãos, minha aranha, avia-te! — incitava a mãe, recolhendo em dobro nas manápulas o que em metade cabia nas da filha. — Mal parecerá se não aceitarmos isto tudo que esta boa alma nos oferece.
Vendo a moura que a mulher estava com vontade de encher outro saco, perguntou-lhe se estava com vontade de gastar toda aquela fortuna durante a sua vida.
Toda rapioqueira, a fulana disse que sim e mais que também, acrescentando: com a graça de Deus.
— Então, se é isso, dou-te apenas três anos de vida para gastares tudo o que levas.
A mulher fez-se branca como o véu dos anjos. Por momentos ficara imóvel e, depois de uma pequena hesitação dolorosa, tomou uma decisão. Salamurda, tratou em virar o saco de fundo para o ar e despejou o seu conteúdo.
— Se ele é isso, fique-se vossemecê com as quinquilharias, que eu fico com os meus anos de vida. E passe muito bem.

Sem querer mais saber do tesouro, voltou para casa com a filha, disposta a viver os anos que Deus entendesse ser servido, ainda que pobre como era.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

SABUGAL



Um rapaz de Sortelha, que todos conheciam como Zé do Feijão, encontrou por acaso um falcão perdido e apanhou-o. Pouco depois, ficou a saber que esse falcão pertencia a um fidalgo que andara à caça e perdera a ave.
O fidalgo oferecia grossa recompensa a quem lhe apresentasse o falcão, vivo; em contrapartida prometia castigo severo a quem tivesse morto a ave.
O Zé do Feijão, perante aquela proposta, pensou nas palavras do seu pai no leito de morte. Tinha o moribundo aconselhado o filho desta maneira:
“Se tiveres um segredo, que não queiras ver espalhado pelo vento que soa, não o contes a ninguém. Nem a tua mulher, nem ao teu maior amigo. Não o contes, seja a quem for. Guarda-o, porque um verdadeiro segredo guarda-se no coração.”
Era, pois, chegada a hora de saber se aquela recomendação do pai tinha algum valor, pois até aí não lhe tinha encontrado qualquer préstimo.
O que pensou e fez ele, então?
Guardou o falcão num sítio onde ninguém o visse e convidou um dos seus melhores amigos para jantar com ele.
“Vamos comer carne de falcão”, disse ele quando apresentou, como ementa, o conteúdo que pôs na mesa.
O amigo quase saltou na cadeira:
“E onde foste tu arranjar o falcão, Zé?”
Ele então narrou com muitos pormenores como tinha apanhado o falcão, ainda vivo, pois o encontrara cansado e com fome para se deixar apanhar. Disse ainda que a ave era boa para uma refeição, pois mais falta lhe fazia a ele do que ao fidalgo. E acrescentou que era boa ocasião para compartilhar aquele pitéu com o seu melhor amigo.
Para conseguir pôr à prova o ditado, o Zé do Feijão, baixou a voz, colocou o dedo indicador à frente dos lábios e recomendou ao amigo:
“Tem cuidado e não fales disto a ninguém.”
Com aquele segredo a pesar-lhe na consciência, o amigo do Zé passou a andar cabisbaixo e taciturno, sem saber o que fazer: se calasse o que sabia, não mais sossegaria a consciência; se desse à língua, condenaria o amigo e a sua consciência também não o deixaria de atormentar.
Até que arranjou uma solução, de forma a divulgar sem divulgar. Chegou-se à beira de umas canas à beira rio e em voz baixa desabafou:
“Foi o Zé do Feijão que matou o falcão.”
Aliviado e descomprometido, o amigo foi à vida dele, sem agora ter qualquer peso na consciência a atormenta-lo. E assim seria, se não fosse o caso de um pastor, que guardava as suas ovelhas à beira do rio, ter arrancado uma cana para fazer uma flauta e assim passar o tempo a tocar nela.
Quando começou a soprar para uma melodia em voga, em vez dos sons musicais saiu uma frase que ali parecia estar guardada:
“Foi o Zé do Feijão que matou o falcão”.
Com esta acusação, depressa o fidalgo enviou os seus homens a casa do Zé do Feijão para lhe fazer pagar caro – talvez com a vida – a morte da sua ave de caça. Levado à presença do senhor de Sortelha para receber a sentença fatal, o Zé do Feijão disse que a ave estava em sua casa, bem guardada e alimentada, prontinha a ser devolvida ao seu dono. E assim fez.
Satisfeito, o fidalgo cumpriu o que tinha prometido: gratificou generosamente o rapaz que lhe apresentou a ave, sã e escorreita, sem um único arranhão ou prova de maus tratos.
Satisfeito, igualmente, o Zé do Feijão, pois via cumprido o judicioso conselho de seu defunto pai, pois o vento que soa pode levar para longe os segredos que se querem ocultar.