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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

AGUIAR DA BEIRA


A serra do Picoto, como filha da serra da Lapa, é áspera e nua como estopa de linho no sítio em que as rochas se estendem pelos cumes, encabritados uns sobre os outros. Quando as neves e os sincelos se derretem nos fraguedos descarnados de vegetação, os raios de sol fazem nas rochas o cintilar da prata e do ouro.
Uma ala do exército francês, que invadira Portugal, correndo em direcção a Viseu, sob o comando de um oficial de Massena, passou por Gradiz e subiu a Monções, chegando os soldados a esta povoação empinada muito esfalfadinhos da subida a mata-cavalos e mais encharcados em suor do que trapos de cozinha.
Ora, essa subida é puxada e, apesar da belíssima paisagem abundante e luxuriosa, para quem não vai propriamente para a contemplar, é obra. Para aqueles chanfrados que a subiam com mochila, farda, arma, munições e outros apetrechos bélicos, sobrava-lhes o trabalho de pernas.
Ninguém os recebeu em Monções, nem de braços abertos nem com eles fechados. Não encontraram os invasores vivalma que lhes pudesse valer com uma sede de água, ou em quem se pudessem vingar por tanto sacrifício baldado de rapina. Deram em vasculhar casa por casa à cata de comida e bebida, mas a única coisa com que se regalaram foi darem azo a partir todo o caco que vissem inteiro. O povinho tinha recebido intimação para abandonar a aldeia e não deixar para trás migalha que tapasse a cova de um dente dos francesinhos.
Arrombaram a porta da capela e, achando a imagem de Santo António, erecto nas suas vestes de franciscano e com a calva monástica a luzir, propuseram levá-la com eles, pois era a única coisa de valor que encontravam naquela desolação.
O soldado que retirou a imagem estava a escondê-la, mas o oficial, que era cobiçoso, deu-lhe uma ordem:
“O santo é meu, soldado. Como não há saque nesta aldeia, esse é o único bem que levo daqui”.

Ao retomarem a marcha, despertou-lhes a atenção umas cintilações que ofereciam as lajes escorregadias da serra, porque tinha chovido na véspera e os calhaus reflectiam os múltiplos regos de água como se fossem espelhos.
Conta a lenda que, amedrontados, julgando-se tratar do exército anglo-luso, largaram a imagem do santo e deitaram a correr pela serra da Lapa como se fossem perseguidos pelo próprio Demo.
O que subsiste da lenda é a confusão dos militares: tomaram as cintilações pelo luzir frio do gume das baionetas e não esperaram pela confirmação, dando às pernas na fuga como se elas não tivessem na conta algumas léguas de subida.
Diz o povo que nesse sítio estão sete fontes que brotam, cada uma, sete fios de água.

TEXTO E GRAVURA: SANTOS COSTA


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