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sexta-feira, 15 de maio de 2015

COIMBRA


O rei D. Dinis e a rainha D. Isabel de Aragão, que tinham contraído núpcias em Trancoso, encontravam-se no seu palácio situado na cidade de Coimbra .
A rainha, que era muito caridosa e amiga dos pobres e necessitados, costumava distribuir pão e outros alimentos a todos os que se acercavam das muralhas do castelo. Eram pedintes que já conheciam o bom coração da esposa do rei e não faltavam à perspetiva de um óbolo, de um pão e de uma palavra de carinho, que D. Isabel sabia muito bem dar a quem mais necessitava.
Dirigindo-se ela com o regaço cheio de pães para distribuir a um magote de pedintes pobres, calhou dessa vez o rei observar as movimentações da esposa, pois ele encontrava-se numa das janelas do palácio. Intrigado, não só porque a esposa transportava alguma coisa no regaço, escondida pelas pregas do vestido, mas porque também observava a numerosa fila de indigentes que se acercavam, desceu à pressa para lhe toldar o passo e perguntar:
“Que levais no regaço, real senhora?”
Ela olhou o esposo com o carinho que lhe dedicava e respondeu com toda a calma e cortesia que aprendera no velho castelo de Aljacerias, em Aragão, onde foi educada e criada:
“Rosas, senhor, são rosas.”
O rei admirou-se e olhou desconfiado para o regaço recolhido e bem cheio. Ele bem sabia que não eram rosas o que ela lá trazia antes de fazer a pergunta.
“Rosas? Rosas em janeiro! Mostrai-mas!”
“Senhor, é como vedes!”
D. Isabel abriu as pregas do vestido e deixou cair à frente do esposo dezenas de rosas brancas.

O rei, que não era tolo, verificou que ali havia um milagre, para o qual só encontrava explicação na extrema caridade de sua esposa.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

SABUGAL


Pela Páscoa entraram em Vilar Maior muitos cavaleiros armados, montados em cavalos brancos e decidiram fazer uma espera às moças solteiras que iam para a missa.
Um alferes disse:
“A virgem de verde bem me agrada, mas eu queria a de azul. Pois hei de roubá-la ao seu pai ainda que isso me custe a vida.”
Ainda não era meia-noite quando o alferes bateu à porta dos pais da moça. Apareceu a mãe à porta .
 “Eu não venho por ti, velha, mas venho por tua filha.”
 “A minha filha não está cá. Está em casa da prima.”
O alferes pegou numa candeia e entrou pela casa adentro, indo encontrar a rapariga a dormir no seu leito.
Acordando com o reboliço, a moça suplicou:
“Por Deus te peço, alferes, e também pela Virgem Maria, que me deixes vestir uma alva camisinha e que me deixes rezar uma só Avé Maria à Senhora do Castelo, pois é minha madrinha.”
Saindo com a rapariga, o militar ainda ouviu a mãe dizer:
“Olha minha filha, não sejas desonra minha.”
Mais tarde, o alferes trouxe a moça nos braços e entregou-a à mãe:
“Aqui tens a tua filha. Ela não se quis vender e tirei-lhe a vida por isso.”

“Venha cá a minha filha, pois antes a quero ver morta que a sua honra perdida.”

segunda-feira, 11 de maio de 2015

SEIA


Na Senhora do Desterro, em S. Romão, encontra-se um penedo que, pela sua configuração natural, se assemelha à cabeça de uma mulher idosa.
Em tempos viveu na serra uma jovem chamada Leonor, que era rica e bonita, mas que vivia sob a tutela de D. Bernardo, seu tio, e com uma velha aia de nome Marta.
O tio de Leonor, que era cruel e despótico, rejeitava o namoro da sobrinha com D. Afonso, um fidalgo arruinado e muito pobre. Para contrariarem a resistência de D. Bernardo, os dois enamorados encontravam-se às ocultas, sempre com a ajuda da velha aia. Confiavam na velha, pois ela garantira-lhes que se algum dia os traísse seria transformada numa pedra.
O acaso fez com que certo dia, vindo Marta com uma carta de D. Afonso para Leonor, o fidalgo obrigou-a a entregar-lha a ele. Era a marcação de um encontro, mas sem dizer o local e hora, pois só a criada o sabia. O tirano conseguiu arrancar à velha o segredo, após ameaças de morte.
Quando D. Afonso se encontrou com Leonor, com Marta a acompanhá-los de longe, como era hábito, mas incapaz de os avisar do perigo, foram alertados por gritos. Os dois apaixonados deslocaram-se ao sítio onde sabiam que Marta os aguardava e encontraram a velha transformada em pedra. Logo suspeitaram do que se passava e fugiram para a Galiza. Regressaram mais tarde, após a morte do tio, e foram ao mesmo lugar. Lá estava a cabeça da velha Marta.

Aí mandaram erigir uma capela.

domingo, 10 de maio de 2015

ALANDROAL


À ermida de Nossa Senhora da Boa Nova, em Terena, anda ligada uma lenda.
Havia há muito tempo uma prisão junto do mar onde um homem se encontrava algemado de pés e mãos. Este homem clamava inocência e ninguém acreditava nele. Nem mesmo o carcereiro, que o via todos os dias, o tomava por pessoa inocente, limitando-se a deixar-se alguma comida e água, indiferente à imobilidade da clausura do homem.
Certo dia, levava-lhe o carcereiro a comida quando viu que as algemas tinham desaparecido. O homem encontrava-se no cárcere, como sempre, mas tinhas as mãos e os pés livres e os instrumentos que o detinham não se viam em lado algum.
O carcereiro perguntou-lhe:
“Como conseguiste libertar-te? O que fizeste às algemas?”
O homem encolheu os ombros, também perplexo:
“Eu não fiz nada. Elas desapareceram!...”
De novo foi algemado e acorrentado, mas de nada valeu. No dia seguinte o homem estava de novo livre dentro da cela. Desta vez o preso parecia ter uma explicação:
“As algemas devem encontrar-se na ermida de Nossa Senhora da Boa Nova, em Terena.”

O preso tinha razão, as algemas foram encontradas na ermida. O milagre comprovara a sua inocência e, por isso, soltaram-no.