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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

MÊDA



Dizem que no castelo de Longroiva viveu um valente fidalgo de nome D. Ramiro Alvar. Era um homem alto, bem constituído, bonito e bondoso, como não havia outro igual pelos castelos da região. Era solteiro e, chegado aos trinta anos, ainda não tinha pensado em contrair matrimónio.
Passado algum tempo, vindo D. Ramiro Alvar da caça ao porco-montês, viu o seu cavalo estacar repentinamente. Uma rapariga tinha saltado detrás de uma sebe e alvoroçara-se com o aparecimento da montada e do cavaleiro. O receio fez com que caísse ao chão, bem diante das patas do cavalo. D. Ramiro saltou para o chão e foi auxiliar a jovem. Segurou-a suave mas firmemente pela cintura. Ela não se atrevia a abrir os olhos, tomada de pânico, mas os dele estavam abertos de espanto: a jovem era uma bonita criatura; nunca tinha visto nos seus trinta anos de vida mulher com tanta beleza!
Não mais esqueceu D. Ramiro aquela bonita rapariga, a qual se chamava Rosa. Apaixona-se por ela e acaba por se casar, realizando-se uma boda memorável em terras de Longroiva e arredores.
Dois anos depois deste casamento, respondeu D. Ramiro ao apelo da guerra. Aí conheceu outro valente guerreiro como ele, que se chamava D. Gonçalo. No mais aceso da luta, D. Gonçalo caiu aos golpes dos inimigos e D. Ramiro foi em seu socorro, não permitindo que despedaçassem o corpo do infeliz companheiro.
Ferido e a necessitar tratamentos e cuidados, D. Ramiro ofereceu o seu castelo de Longroiva para D. Gonçalo repousar e ser convenientemente tratado, enquanto ele permaneceu no combate.
Ora, passado algum tempo, D. Gonçalo estava curado das feridas e fez acreditar à jovem esposa de D. Ramiro que o seu marido tinha sido morto na guerra. A notícia teve o efeito de um raio que trespassasse o corpo de Rosa. A jovem, sentindo-se viúva, fechou-se em pranto durante dias, permanecendo em luto pesado durante um ano, findo o qual acedeu aos desejos de D. Gonçalo para que o desposasse, mais dizendo o impostor, em memória de D. Ramiro, que assim o desejou antes de morrer.
Tinham acabado as cerimónias, eis que é regressado a casa D. Ramiro Alvar. Sabendo da notícia pelos seus criados e de todos sabendo as artimanhas que levaram D. Gonçalo a receber sua mulher por esposa, D. Ramiro entrou em casa e, vendo o usurpador com Rosa, desafiou-o para um duelo. Logo ali as espadas se cruzaram numa luta de morte e a lâmina de D.
Ramiro trespassou o peito de D. Gonçalo, que tombou aos seus pés. Rosa, que a toda a luta assistiu, arrojou-se aos pés do marido.
“Fazei com que essa lâmina atravesse o meu peito”, clamou ela, em pranto.
“Não o farei, pois que todos me contaram como Gonçalo vos enganou com a notícia da minha falsa morte.”
“Culpada sou por acreditar e não vos ser fiel até morrer! Mil vezes vos pedirei para me matardes; se não o fizerdes, mil vezes me arrojarei diante de vós ou diante de quem o queira fazer.”
“Perdoo-vos, Rosa. E desde já vos garanto que não responderei a esse vosso desejo, nem permitirei que homem algum o faça por mim.”
“Manterei em segredo o amor que vos tenho e soltarei noite e dia o pranto do meu arrependimento. Recuso, pois, o vosso perdão.”
Dito aquilo saiu de casa, montou a cavalo e afastou-se do castelo de Longroiva. Não olhou para trás. Mesmo que o fizesse, os seus olhos inundados de lágrimas, não deixariam ver a felicidade que deixava fugir em cada solavanco do galope da montada.

Refugiou-se na sua velha cabana do bosque. Dizem que ainda hoje, quando alguém atravessa o bosque e se aproxima da cabana, consegue ouvir o pranto da desconsolada Rosa, como hino amargo da penitência que não era merecida.

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